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Opinião

Uma juventude perdida!

01 de Março de 2018

Recordam-se este ano os 13 anos do falecimento de João Paulo II, em 2 de abril. O papa promotor das Jornadas Mundiais da Juventude, cujo impulso não se esquecerá neste ano dedicado ao Sínodo dos Bispos sobre o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional».

Enquanto ministro ordenado em contacto com alguns jovens, posso constatar que a juventude claramente não está perdida, no entanto a Igreja lida com um grande desafio: pretende evangelizar os jovens de hoje com a linguagem de ontem! A maioria dos nossos jovens concluirá o décimo segundo ano de escolaridade, uma percentagem significativa irá frequentar ou frequenta um curso universitário e um número não menos expressivo, nos dias que correm, irá alcançar o grau académico de mestre ou doutor.

Associado à crescente escolarização, existe um forte domínio dos instrumentos técnicos e uma maior apetência pela utilização das mais modernas e atuais formas de comunicação. Os jovens de hoje deambulam por ambientes muito mais virtuais do que físicos, entre o Instagram, o Facebook, o Pinterest, o Twitter ou o Snapchat. A nossa juventude, literalmente, anda nas nuvens, ou melhor, não prescinde da cloud, e já não escreve diários, dedicando-se aos vlogs.

Muito além dos juízos de valor, devemos tomar consciência de que a realidade mudou e que sem prescindir do conteúdo devemos ter a ousadia de melhorar a forma. A Igreja não deve temer a constante indagação de uma geração que está habituada a ser questionada em virtude do seu constante contacto com a academia. A maioria dos jovens não pretende pôr em causa as verdades da fé, pelo contrário, quer dar razões à fé.

Na sua última mensagem para as Jornadas Mundiais da Juventude, o Papa João Paulo II dizia aos jovens que a «Igreja precisa de testemunhas autênticas para a nova evangelização: homens e mulheres cuja vida seja transformada pelo encontro com Jesus; homens e mulheres capazes de comunicar esta experiência aos outros». Homens e mulheres que só poderão comunicar essa experiência se a compreenderem, talvez não na totalidade, é certo; mas terão, pelo menos, de estar familiarizados com a linguagem que diga a experiência do encontro concreto com Jesus, que muitos anseiam verdadeiramente por fazer. Esta vontade não é inédita, atravessou a Igreja ao longo da História, e por isso João Paulo II apelava à juventude a recorrer à intercessão dos santos, muitos dos quais que, «com a mesma atitude interior dos Magos, procuraram apaixonadamente a verdade. Eles não hesitaram em colocar as próprias capacidades intelectuais ao serviço da fé, testemunhando assim que fé e razão estão ligadas e que uma se refere à outra».

Uma parte significativa da juventude de hoje tem esse desejo: o de compreender, quanto mais não seja em linhas máximas, a razões da sua fé, e isto não é negativo. Nesta indagação pela verdade, as dúvidas são uma constante e as perguntas farão parte do processo, e isto é muito positivo, como afirmou Ermes Ronchi num dos Exercícios à Cúria Romana, «e em vez de nos pormos imediatamente à procura de respostas, paremos para viver bem cada pergunta [...]. Apreciar as perguntas, ser benevolente com elas: só por si são revelação».

Não privemos a juventude de dar razões à sua fé, incentivemo-la no questionamento, afinal «a fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do Homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio» (João Paulo II, Fides et Ratio).