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Opinião

Uma economia morna

27 de Janeiro de 2022

A economia portuguesa está mal? Não, não se pode dizer isso. Mas será que a economia portuguesa está bem? Isso também não se pode dizer. O problema está mesmo aí.

Há oito anos, desde que acabou a terrível crise da troika, que a nossa economia anda a crescer, mas sempre moderadamente. O ano passado, com a surpresa do vírus, deu um trambolhão como não se via desde a Guerra Mundial, e maior que os nossos parceiros (dos quinze da Europa, só Espanha, França e Itália caíram mais). Ultimamente anda a recuperar, mas de forma incerta e lenta.

Entretanto, devido a esse crescimento moderado, somos ultrapassados pelos países de Leste em nível de produto por pessoa em paridades de poder de compra. Dos doze orientais, Chipre e Eslovénia já estavam acima de Portugal quando entraram na União em 2004. Desde então fomos superados por Malta em 2010, República Checa em 2011, Estónia em 2017 e Lituânia em 2018. No período só ultrapassámos a Grécia em 2010.

Isto não é o fim do mundo. Portugal é um país rico, pertence a um clube de países ricos, onde é bom que outros vão ficando ricos. Mas estamos a aproximar-nos do fundo da escala. Nos 27 da União já só há oito mais pobres que nós, com Polónia e Hungria já ameaçando passar-nos à frente em breve.

Por que razão o nosso crescimento tem sido tão medíocre? Isso é fácil de explicar: andamos a fazer outras coisas. Para uma economia crescer é preciso querer muito. Se notarmos bem, as questões do desenvolvimento, inovação, investimento, produtividade não fazem realmente parte do nosso discurso político, para lá de perfunctórias juras piedosas. Aquilo que realmente motiva os nossos dirigentes são outras coisas.

O anterior Governo colocou todo o seu sucesso em reduzir o défice orçamental. Isso não tem mal nenhum, porque o desequilíbrio era muito perigoso. Mas fê-lo garantindo salários, pensões e outras despesas correntes, o que obrigou a aumentar impostos sobre as empresas e cortar os gastos de investimento e operação. Não admira que o crescimento tenha desiludido.
O que realmente motiva a generalidade das proclamações partidárias são regalias, direitos, salários e outras benesses, sempre sem se explicar como se pagam. Pelo contrário, investimento e inovação pertencem ao «grande capital», monstro horrível a abater. Assim é normal que a dinâmica se mantenha fraca.

Mesmo no Plano de Recuperação e Resiliência, em que tantos apostam como via para o futuro do país, a esmagadora maioria das despesas são para construção e burocracia, com o Estado a levar a grande parte. No que toca a “Capitalização e Inovação Empresarial”, ela ocupa menos de 3 dos 16 mil milhões do pacote, e metade disso serve para financiar um novo banco estatal.
Os nossos governantes, e grande parte dos eleitores que confiam neles, acreditam mesmo que o crescimento se consegue com programas públicos, cheios de boas intenções e belos relatórios, enquanto desconfiam de capitalistas, empresários, inovadores e concorrentes, precisamente aqueles que estão a fazer o progresso dos países que nos ultrapassam.

É muito importante repetir que isto não é terrível ou destrói o país. Afinal a economia cresce, mesmo se pouco. Isso chega para o regime alimentar a classe média e os outros grupos instalados que, sobretudo através do Estado, capturaram o sistema. Graças a isso, Portugal tem estado livre de toda a turbulência económico-social que assola grande parte dos nossos parceiros, precisamente por causa das dores de crescimento. Mas vamos ficando para trás.