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Opinião

Obesidade: uma doença de raízes produndas

07 de Maio de 2021

A Organização Mundial de Saúde considerou a obesidade, a «epidemia global do século XXI». O dia 4 de março (Dia Mundial da Obesidade) foi dedicado à chamada de atenção para uma doença que atinge a população portuguesa e mundial, sendo responsável por inúmeras mortes e por sofrimento físico, psicológico, mas também social e até económico.
 
A obesidade, definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), é uma doença crónica que consiste na acumulação anormal ou excessiva de gordura e representa um risco para a saúde. Um indivíduo com um índice de massa corporal (relação entre peso e altura) superior a 30 é considerado obeso (entre 25 e 30 considera-se que tem excesso de peso).

A obesidade não é apenas uma condição, um problema; não é um desleixo, uma falta de força de vontade. É uma doença e é por isso que várias organizações internacionais e nacionais (como a Federação Mundial da Obesidade ou a Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade) têm tentado sensibilizar para que se olhe para a obesidade como doença e não se coloque o ónus (e o estigma) na pessoa; ao invés de se olhar para o doente como obeso, a sensibilização é para que se encare a pessoa como alguém que sofre de obesidade.

À obesidade estão associadas múltiplas causas, de raízes profundas (na causa e no tempo). Fatores como a biologia, a genética, as hormonas, o ambiente em que se cresce, a classe social, acontecimentos da vida pessoal, saúde mental, problemas de sono e também alimentação e atividade física surgem como causas múltiplas (geralmente não surge de um fator isolado) e fatores de risco para a obesidade.

A simples falta de perceção e sensibilização da sociedade para esta doença pode revelar-se mais um fator de risco. Senão vejamos, um estudo recente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto demonstrou que «74% dos pais de filhos [com sete anos] com excesso de peso mostram-se satisfeitos com a silhueta das crianças». Além disso, «36% das mães e 31% dos pais que tinham filhos normoponderais, isto é, com um peso normal para a idade e o sexo, desejavam uma silhueta maior para as suas crianças» (Notícias Universidade do Porto). Isto significa que muitos pais não conseguem percecionar o excesso de peso dos seus filhos e há um risco maior de crianças com excesso de peso poderem vir a sofrer de obesidade no futuro.

É por todas estas “raízes profundas” que o tratamento para esta doença não se resume apenas a uma vontade pessoal de comer menos e fazer exercício físico (embora estas sejam duas áreas essenciais para o tratamento da doença) e requer um acompanhamento médico. O tratamento, de acordo com as causas e com as patologias associadas ou não, difere de pessoa para pessoa. Dietas agressivas e sem o devido acompanhamento podem, para além de fazer regressar o peso, acarretar perigos para a saúde, porque estamos a falar de uma doença.

Além de ser uma doença por si própria, a obesidade constitui um fator de risco em cerca de mais duzentas doenças, algumas com elevado índice de mortalidade, como as doenças cardiovasculares (principal causa de morte mundial), a hipertensão, a diabetes e até alguns cancros.

Desde 1975, a prevalência do excesso de peso (fase prévia à da obesidade) na população mundial praticamente triplicou, sendo que atualmente cerca de 2 mil milhões de pessoas têm excesso de peso. Os países desenvolvidos foram os mais atingidos inicialmente por esta epidemia, resultado de um estilo de vida dito “urbano”, com fácil acesso à alimentação, nem sempre saudável, de que é exemplo a denominada “fast-food”. No entanto, atualmente, praticamente todos os países (à exceção dos da África subsariana e Ásia em que o problema da desnutrição ainda é mais grave) lidam com o aumento da obesidade, observando-se muitas vezes, em países de baixo rendimento e em desenvolvimento a coexistência dos dois problemas extremos da alimentação, a desnutrição e o excesso de peso (de que a Ásia é o exemplo mais significativo).

Ouvimos frequentemente falar de obesidade, dos problemas e das complicações que acarreta, mas o momento que temos vindo a atravessar é particularmente sensível. Ao mesmo tempo que nos encontramos perante duas pandemias, estudos indicam que elas se cruzam, com a obesidade a ficar em desvantagem.

Embora as pessoas que sofrem de obesidade não corram um risco maior de ser infetadas pelo vírus SarsCov-2, as consequências podem ser bastante mais pesadas e mais do que um estudo comprovou esta realidade (alguns publicados na Obesity Reviews). Contraindo a Covid-19, as pessoas que sofrem de obesidade têm mais 48% de risco de ter um desfecho mortal e mais 113% de probabilidade de virem a ser internadas.

A realidade de confinamento que temos experimentado também poderá vir a exponenciar, à semelhança das outras doenças, os casos de obesidade, pelo alinhamento de vários fatores de risco: o sedentarismo, uma alimentação mais desequilibrada, questões relacionadas com a saúde mental, maior dificuldade de aceder aos hospitais, médicos e tratamentos (também devido à crise económica e à falta de comparticipação de vários dos tratamentos).

É por isso que este é também o momento de sensibilizar, mais uma vez, para uma doença responsável por um dos maiores números de mortes evitáveis do mundo.
 
Obesidade em números
Mais de metade (53,5%) da população adulta a residir no nosso país, em 2019, tinha excesso de peso ou era obesa (INE)
Em 2019, 4,6 milhões de pessoas com 18 ou mais anos (36,6% da população) tinha excesso de peso e 1,5 milhões (16,9%) obesidade, o que representa um aumento em relação a 2014 (36,4% e 16,4%, respetivamente). (INE)
No mundo, 1,9 mil milhões de adultos acima dos 18 anos tinha, em 2016, excesso de peso, e mais de 650 milhões sofriam de obesidade. Segundo a OMS, 52% da população do mundo inteiro apresentava obesidade ou excesso de peso.

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