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Opinião

Santidade aqui e agora

06 de Junho de 2018

A Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, datada do dia de São José e apresentada em 9 de abril, é mais um texto muito pessoal do Papa Francisco. Pequeno documento, quase um terço da Amoris laetitia, pode tomar-se como uma conversa com cada um de nós acerca da santidade: «O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades.» (2)

O texto é ao mesmo tempo direto e profundo, cheio de exemplos quotidianos e citações de santos, sempre mergulhado no Evangelho. Destacam-se a meditação sobre as bem-aventuranças (63-94) e as obras de misericórdia (95-109), a identificação dos inimigos contemporâneos da santidade (35-62) e, terminando num tom bem pragmático, a proposta dos instrumentos da santidade: luta e vigilância (159-165) e discernimento (166-177). Nestas páginas, todos encontramos muitos motivos de meditação, muitos atos de contrição, muitas emendas de vida.

Para nos chamar à santidade, o Papa começa por defini-la no belíssimo capítulo I. Não a define como um esforço, um sacrifício, mas como um dom, uma companhia. Citando uma homilia de Bento XVI, afirma: «Podemos dizer que estamos circundados, conduzidos e guiados pelos amigos de Deus. Não devo carregar sozinho o que, na realidade, nunca poderia carregar sozinho. Os numerosos santos de Deus protegem-me, amparam-me e guiam-me.» (4) Os exemplos dos bem-aventurados «são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal» (11).

Para Francisco, a santidade não é algo transcendente, mas uma missão de todos nós, que «irá crescendo com pequenos gestos» (16). Trata-se de «conceber a totalidade da tua vida como uma missão. Tenta fazê-lo, escutando a Deus na oração e identificando os sinais que Ele te dá. Pede sempre, ao Espírito Santo, o que espera Jesus de ti em cada momento da tua vida e em cada opção que tenhas de tomar, para discernir o lugar que isso ocupa na tua missão. E permite-Lhe plasmar em ti aquele mistério pessoal que possa refletir Jesus Cristo no mundo de hoje» (23). Mas «o critério de avaliação da nossa vida é, antes de mais nada, o que fizemos pelos outros» (104).

Isto não é um mito. Não podemos «ignorar que nem todos podem tudo, e que, nesta vida, as fragilidades humanas não são curadas, completamente e de uma vez por todas, pela graça. Em todo o caso, como ensinava Santo Agostinho, Deus convida-te a fazer o que podes e “a pedir o que não podes”; ou então a dizer humildemente ao Senhor: «“Dai-me o que me ordenais e ordenai-me o que quiserdes.”» (49) A profunda sabedoria e humildade destas palavras mostra bem onde está realmente a santidade: «Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa.» (41)

Se não tiverem tempo para mais, porque as famílias são sempre muito ocupadas, ao menos leiam estas belíssimas cinco páginas do capítulo I. Se sobrar mais alguma disponibilidade, não percam as secções sobre a alegria e o sentido de humor (122-128) e a oração (147-157). Mas o resto é também imprescindível e deve ser lido várias vezes.