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Lançamento

17/Mar

O sofrimento de Deus

Ficha Técnica
Título: O sofrimento de Deus
Autor: Pedro Miguel Mendes de Sousa 
Categoria: Prémio Paulus de Edição
Formato: 14.00 cm x cm 21.00
Páginas: 192

Entrevista a Pedro Sousa, vencedor do Prémio PAULUS de Edição 2019

O que é que significa este prémio para si? Como acolheu a notícia de que tinha sido o escolhido?

É uma alegria imensa receber este prémio. Não somente pela notariedade que tem a edição deste prémio, mas também pela inequívoca qualidade da editora.
Lembro-me de estar nos afazeres pastorais, cá nas paróquias de estágio, quando recebi o telefonema para me informar desta alegre notícia. Na altura, foi uma feliz notícia pré-adventícia.
É um prémio que culmina o meu percurso académico de 5 incríveis anos, na UCP, em Braga. Naturalmente, sinto-me feliz por ver um trabalho que me deu imensa alegria a escrever ser agraciado com esta edição. Na faculdade, sempre procurei viver afetivo equilíbrio: dedicar-me ao estudo, mas também servir a Associação de Estudantes e a Revista dos alunos da Faculdade, a Cenáculo. Portanto, espero que este prémio possa servir de estímulo para todos os alunos. Não sou exemplo para ninguém, mas creio que é possível viver este equilíbrio.
Ao olhar para 2019 percebo que fui agraciado com fantástico ano. Tenho imenso agradecer a Deus, pois aquilo que d’Ele recebo é infinitamente maior do que aquilo que posso dar.
 
Que obra é esta que venceu o Prémio PAULUS de Edição?

A obra concentra-se no fenómeno do sofrimento e na resposta cristã a essa incontornável experiência. Afinal, se Deus é Amor, porque sofremos? Se a revelação cristã, que radicaliza a afirmação de que o ser humano não pode salvar-se a si mesmo, anunciando-nos que nasceu para nós um Salvador (cf. Lc 2,11), onde está Ele quando a humanidade sofre? Se o advento de Deus no evento do ser humano dá-se e diz-se na história, que a partir daí é história comum do ser humano e de Deus, qual o sentido do sofrimento dos inocentes que são expostos a essa experiência, desde o primeiro momento?
Diante de tão acutilantes inquietações, afirmo o que o sofrimento de Deus, assumido como solidariedade com o outro que sofre inocentemente, tornou-se, em Jesus Cristo, força de vida e de libertação do próprio sofrimento. N’Ele, Deus manifestou-se definitivamente contra o mal/sofrimento. Nunca o justificando ou explicando, supera-o. O decisivo facto de Deus assumir, em Jesus Cristo, a condição de vítima, sofrendo com, e por todas as vítimas inocentes, não significa que Ele aceite o sofrimento, porque assumir não corresponde a aceitar.
  
Porque é que é importante perceber se Deus sofreu?

Desde muito cedo que algumas imagens de deus – anunciadas de diversos modos - me faziam muita confusão. Um deus vingativo? Cruel? Justiceiro? Nesse deus eu não acredito! O Deus de Jesus Cristo é o Deus-não-é-senão-Amor, que nos acompanha amorosamente!
Ora, enquanto discurso ou linguagem sobre Deus, a reflexão teológica não pode jamais abandonar a realidade do sofrimento, nem melificar a inconveniente questão: Como falar de Deus diante da abismal história do sofrimento? Todavia, não será pensável nem admissível uma superação deste fenómeno que signifique aceitação da sua inevitabilidade ou necessidade, mas, antes de tudo, uma atitude de radical manifestação do absurdo e inaceitável presente no fenómeno do mal e/ou do sofrimento, em relação à própria Criação.
Assim sendo, percebendo todo este discurso é preciso não esquecer que ele tem consequências antropológicas para o nosso quotidiano. Aliás, é também por isso que sou a favor de criar um referendo para eliminar algumas expressões que não anunciam este Deus que só é Amor. Por exemplo: tens de ter fé; foi vontade de Deus; Deus põe à prova quem mais ama; Deus aperta, mas não esmaga. Ou ainda: seja forte, ou está melhor no céu. Ainda perpassa, quer na mentalidade, quer na oração cristã, o pensamento que as hecatombes naturais e calamidades humanas são uma punição de Deus pelos pecados de um determinado indivíduo ou pela infidelidade coletiva.
 
Como é que se pode fazer a ligação, se é que se pode, para o sofrimento que o ser humano enfrenta e a forma como Deus nos pode ajudar?

Se Deus se compadece, tal não significa a sua desdivinização, nem a divinização do sofrimento. Na verdade, Deus não diviniza o sofrimento, mas redime-o.
Ora, ao falarmos de compaixão, estamos diante de uma das categorias essenciais dos atributos de Deus, no Antigo Testamento, que em Jesus Cristo se vai transformar em chave de leitura das relações de Deus connosco, o que se torna em desafio para a chave de leitura das nossas relações com os outros, como sinal distintivo e condição sine qua non para a nossa relação com Deus.
Portanto, o cristão no sofrimento depara-se também com uma tarefa porque o lugar do conhecimento de Deus crucificado está nas cruzes deste mundo, porque as existências ameaçadas revelam Deus presente nessas realidades fraturantes.
Assim sendo, esta ligação faz-se mediante ministério da presença. É importante valorizar a presença, até em silêncio, mas também os gestos, como o abraço ou a simples companhia no choro. Para além da fragilidade encontra-se a dádiva.
 
Apesar de ser um trabalho académico, acha que poderá fazer sentido para o quotidiano de cada crente?

Sim, sem dúvida. É uma investigação, ainda que germinal, académica, mas se o trabalho não tivesse incidência na realidade concreta de cada pessoa não teria pertinência.
 
O que é que as pessoas podem esperar com a leitura desta obra?

Nunca tive a pretensão de procurar responder a todas as inquietações acerca do fenómeno do sofrimento de Deus. É uma reflexão germinal. Há perguntas por responder. E ainda bem!
Contudo, é uma reflexão que se abeira do Deus de Jesus Cristo, Ele que conhece o ser humano, se manifesta na história e é capaz de sofrer com o nosso sofrimento. Isto é já sintomático!