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Opinião

O papel das relações

30 de Agosto de 2020

As primeiras descobertas sobre o papel das relações e da criação de laços na saúde começaram a desenhar-se em Harvard, em 1938, época da Grande Depressão. O objetivo inicial do estudo de longo prazo, o «Grant Study» «Estudo do desenvolvimento adulto», era encontrar pistas que ajudassem a explicar e a alcançar uma vida mais saudável e mais feliz. A investigação começou com dois grupos de controlo, um grupo de alunos privilegiados de Harvard (que incluía John Kennedy) e outro de jovens provenientes dos bairros mais pobres e problemáticos de Boston. Em 2017, quase 80 anos depois, uma parte dos elementos dos primeiros grupos de controlo ainda estava vivo e o estudo já se tinha alargado às mulheres e filhos (estudo longitudinal), fazendo deste um dos estudos mais longos, se não o mais longo de que há registo (e cujos dados serviram e servem para desenvolver outros estudos relacionados com o tema das relações e da saúde).

Nesta, mas também noutras investigações, uns descobriram o papel das relações na saúde mental, outros estudaram o seu papel na longevidade, outros ainda a sua influência nas doenças cardiovasculares ou na obesidade, por exemplo.

Em todas as áreas dos estudos, os resultados apontam para uma conclusão comum: relações saudáveis e felizes são protetoras da saúde. E não se pense que esta importância se refere apenas à saúde mental. Relações sociais saudáveis, próximas, contruídas sobre uma base de apoio, confiança e amizade, influenciam a nossa saúde física. Pessoas com relações sociais mais estreitas e mais felizes são mais saudáveis e vivem mais tempo.

Esta é a principal lição retirada pelos investigadores do estudo desenvolvido pela equipa de Harvard, revelou o psiquiatra, professor e último diretor do estudo, Robert Waldinger, numa conhecida Tedtalk «What makes a good life?» («O que torna a vida boa?» em tradução livre). Independentemente do percurso de cada um, até ao topo ou até ao poço, da sua profissão, médico, advogado, operário fabril, de terem passado por dependências, etc., a lição é a de que as «boas relações mantêm-nos mais felizes e mais saudáveis. Ponto final.»

Além desta lição, os investigadores puderam chegar a três conclusões: «A primeira é que as relações sociais são boas para nós e a solidão mata», garantiu o investigador. A segunda recai sobre a qualidade das relações, independentemente do número de amigos ou de relações continuadas no tempo, importa «a qualidade das relações íntimas. Viver no meio de conflitos é prejudicial para a saúde e viver relações protetoras e felizes é protetor. Conforme explicou o professor, pessoas com relações felizes têm benefícios até no processo de envelhecimento. As pessoas com relações mais felizes disseram, aos 80 anos, que nos dias em que tinham mais dores físicas continuavam felizes, ao passo que as que tinham relações mais infelizes viam a sua dor física aumentar em consequência do seu sofrimento emocional. A terceira lição foi a de que as boas relações não protegem apenas o corpo, mas também o cérebro. As pessoas com relações seguras, de confiança e que sabem que podem contar com os outros «mantêm a memória mais viva, durante mais tempo», explicou Waldinger.

Outros investigadores abordaram outros benefícios das boas relações. Um grupo da Universidade de Warwick, chegou à conclusão que ter amigos é um dos fatores preventivos da depressão. Por outro lado, no caso de ela existir, ter amigos com uma boa saúde mental (alegres e felizes), pode ser um dos fatores adjuvantes à recuperação. A felicidade e a alegria contagiam, ao passo que a depressão não. Os investigadores concluíram que o facto de termos um amigo com depressão ou alguma fragilidade mental não é, só por si, um fator de risco.

Pessoas mais felizes e envolvidas nas relações com a família, os amigos e até a comunidade (por exemplo, a pertença a uma comunidade religiosa) têm tendência a adotar comportamentos mais saudáveis, em resultado de um instinto protetor relativamente aos outros que acaba por se refletir sobre si.

Seeman, outro autor, concluiu também que um ambiente protetor na infância promove o desenvolvimento saudável do sistema imunitário, nervoso e metabólico.

Da mesma forma, relações de stresse, conflituosas, sem afeto nem segurança, podem influenciar negativamente o desenvolvimento das crianças, por um lado, ou contribuir para uma saúde mais pobre. Vários investigadores que estudaram casamentos encontram relação entre uma relação feliz e uma boa saúde e entre uma relação infeliz e uma saúde mais pobre (e, neste caso, uma relação com a depressão).

O segredo para uma boa vida defende Waldinger (e as conclusões de vários estudos) não é o sucesso, nem a fama, nem a riqueza. O segredo para uma boa (e feliz) vida são boas relações, fortes, afetivas, confiáveis. Não cabe nesta descrição o serem perfeitas e sem discussões, explica o investigador. Mesmo as boas relações são difíceis e dão trabalho, mas são um fator de felicidade e bem-estar, dizem os estudos.