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Opinião

«O meu fogo vos dou», o Papa aos leigos

17 de Janeiro de 2019

A Igreja celebrou, em 2015 e 2016, um importante Sínodo dos Bispos sobre a Família. Logo após veio o Sínodo dos Jovens, os quais foram solicitados a serem protagonistas para fazer chegar a sua voz a todas as instâncias diocesanas e eclesiais, por mais instaladas, burocráticas e clericais que sejam. Entretanto, também se iniciou uma importante reforma dentro das estruturas do Vaticano (sede governativa da Igreja universal) com a criação de uma sagrada Congregação para os Leigos ao mesmo tempo que se fazia entrar algumas (mas ainda poucas) mulheres para certos órgãos governativos eclesiais.

Até o próprio cardeal Parolin, secretário de Estado, afirmou que, depois dele, uma mulher poderia ser sua sucessora, visto que o seu importante cargo não implica, só por si, nenhuma clericalização.

«A teologia do laicado é ainda uma teologia de retalhos, e as suas possibilidades imensas permanecem inéditas, pelo que à Igreja faltam ainda caminhos e caminheiros necessários para alcançar os seus sagrados fins de redenção, de liberdade e de comunhão.» Isto era o que dava a entender, já em 1951, Yves Congar, cardeal e grande teólogo dominicano do século XX, que muito trabalhou no Concílio Vaticano II, e que levou este Concílio a tratar bastante bem o seu ensinamento sobre «a teologia do laicado». No Concílio, dos leigos falou-se  principalmente na Lumen Gentium (30-38 [Os leigos, alma do mundo]) e no Decreto especialmente a eles consagrado Apostolicam Actuositatem.

Agora, o Papa Francisco disse: «Esta é a hora dos Leigos, embora até pareça que o relógio esteja parado.» A responsabilidade desta realidade pertence largamente à praticidade jurídica eclesial. Mas para o Papa Francisco, «o Batismo é a nossa “primeira e fundamental  consagração”», destacando que «ninguém é batizado como pároco ou bispo. Batizaram-nos como leigos, sendo este o sinal indelével que ninguém poderá eliminar. O clericalismo não apenas anula a personalidade dos cristãos, mas até tende a diminuir e a desvalorizar a graça batismal. O clericalismo leva à funcionalidade do laicado, tratando-o como “mandatado”, coarta as iniciativas e os esforços distintos, e apaga o fogo profético que toda a Igreja está chamada a testemunhar. O clericalismo esquece-se de que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o povo de Deus».

«O meu fogo vos dou», dizia o Papa aos leigos na viagem de regresso da sua visita pastoral ao Chile. Também um émulo seu, o padre Arturo Sosa – o “papa negro”, como é conhecido o superior-geral da Companhia de Jesus –, em visita a Espanha, se referiu aos grandes desafios da Igreja de hoje: «O principal é encarnar a eclesiologia do Vaticano II para que a Igreja se converta no povo de Deus, uma Igreja leiga, comunidade de comunidades, aberta à inspiração do Espírito Santo e capaz de discernir.» E já a 26 de junho de 2013, o Papa Francisco concluía assim uma sua catequese sobre o mistério da Igreja: «Ninguém é secundário! Ninguém é o mais importante na Igreja, pois aos olhos de Deus todos somos iguais. Um de vós poderia dizer: “Ouça, Senhor Papa, Vossa Santidade não é igual a nós!” Sim, sou como cada um de vós, todos somos iguais, somos irmãos! Ninguém é anónimo.»