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Opinião

Heroísmo de trazer por casa

03 de Outubro de 2019

O verão passou e o novo ano escolar e pastoral está em curso. Um mergulho na vida quotidiana comum nos é pedido. Importa recomeçar com ânimo novo. Como se fosse a primeira vez, desterrando a rotina que nos torna máquinas que repetem desalmadamente a mesmidade
cansada e banal. É que as máquinas não têm mesmo alma nem coração.

Desafiando a tentação da banalização da vida quotidiana, quero propor, a vós e a mim, o heroísmo de trazer por casa. Não se trata de um heroísmo reservado a atletas olímpicos da virtude, nem a almas de eleição que nos parecem ser canonizáveis em vida. Falo para pessoas comuns como eu que, apesar das minhas limitações e fraquezas, experimento que Deus me pede qualidade de vida, pondo amor nos gestos, palavras e ações do dia a dia.

A miragem da virtude espetáculo faz-nos adiar, indefinidamente, a simplicidade amorosa do dever cumprido com alegria, dos gestos discretos de serviço, das delicadezas cordiais. A verdadeira grandeza está nas pequenas coisas, como a beleza está nos pormenores harmoniosos, e não no bloco, tão imponente quanto tosco, de mármore. É um beco sem saída ficar aguardando ocasiões de heroísmos de luxo: salvar um náufrago no mar, arrancar de uma casa em chamas uma criança ou um velhinho... se possível com jornalistas presentes para divulgarem aos quatro ventos tal acontecimento heroico.

A vida real de cada dia proporciona-nos atos heroicos de trazer por casa, purificados de vaidades espetaculares, como por exemplo: oferecer uma palavra de consolação e esperança a alguém que está triste e desanimado; ajudar um idoso ou invisual a atravessar uma rua; ouvir
uma pessoa que quer desabafar connosco; colaborar nas tarefas do arranjo da casa, sem ficar à espera de que tudo apareça feito e servido a mim, excelentíssimo senhor...

Rabindranath Tagore, um grande poeta indiano, assim se expressa: «Tinha adormecido e sonhava que a vida era só alegria. Acordei e vi que a vida era servir. E, servindo os outros, aprendi que servir era a alegria.» Precisamos de acordar dos sonhos de grandeza, utópica e irreal, e investir em gestos simples de fraternidade concreta. Este é o heroísmo a que todos somos chamados. Em cerca de 90% da sua vida, o próprio Deus omnipotente, encarnado em Jesus de Nazaré, fez o milagre de não fazer milagres, assumindo a nossa vida comum por inteiro, sem montar uma carpintaria computorizada nem eletrificar a sua casa. Assim foi salvador da humanidade, modelo máximo do heroísmo de trazer por casa.

Não seria perfeita insensatez que um pintor investisse mais no esplendor e riqueza da moldura do que na beleza do seu quadro? É que o quadro da nossa vida, que nos cabe aperfeiçoar cada dia, vale pela beleza dos nossos gestos de amor e não pela espetacularidade da moldura vistosa. Como recorda Santa Teresa de Jesus: «Deus não olha tanto à grandeza das nossas obras quanto ao amor com que as realizamos.» Porque não investir, cada dia, em gestos simples e amorosos, de heroísmo de trazer por casa?