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Opinião

Famílias que ajudam famílias

16 de Janeiro de 2020

Alexey e Larysa são ucranianos. Vivem nos arredores de Dublin e têm duas filhas. Há pouco bateram-lhes à porta duas situações imprevistas: Alexey perdeu o emprego e Larysa ficou grávida do terceiro filho. São imigrantes, vivem numa casa alugada muito modesta e com condições mínimas. Ficaram alarmados e quase desesperados. Não sabem o que fazer. As suas famílias e os seus amigos vivem na Ucrânia, e com os vizinhos não conseguiram ainda estabelecer laços. Regressar ao seu país não é uma opção pois investiram tudo o que tinham aqui. Têm medo que a Segurança Social intervenha. Fecham-se até conseguirem resistir. São ortodoxos, mas foram à paróquia mais próxima pois sabem que a Igreja Católica tem ajudado muitas pessoas. São acolhidos por um pároco sensível a estes problemas e que os acompanha até à assistente social. Propõem-lhes duas soluções: autorizarem que as filhas sejam entregues temporariamente a uma instituição, até que tenham estabilidade económica, ou serem acolhidos por uma família. Os pais não têm coragem de se separarem das filhas, e percebem a grave situação em que se encontram. Precisam de ajuda. Mesmo sem saberem bem do que se trata, optam pela segunda proposta: colocarem-se nas mãos de uma família que os irá ajudar. Não compreendem, mas confiam e irão perceber que partir daquele momento um raio de luz entrou nas suas vidas.

Este é um episódio, como tantos outros, que revela a fragilidade das famílias, com filhos pequenos, hoje. Trata-se de uma situação invisível, mas que cresce de dia para dia a par e passo com o fenómeno da migração e dos refugiados. E são muitas as angústias que enfrentam: perda do emprego e da casa, dificuldades económicas, tensão na relação do casal, vergonha diante dos vizinhos, incapacidade em continuar a ajudar a família na Ucrânia (que também depende deles), dúvidas e frustrações de todo o tipo. As consequências mais humanas são o isolamento, a desconfiança e o desespero. Situações que desgastam o normal funcionamento da família e ameaçam tanto a vida do casal como o crescimento dos mais indefesos: as filhas e o menino que está para nascer.

Na maior parte dos casos, os casais optam pelo afastamento dos menores do núcleo familiar até encontrarem estabilidade económica e/ou familiar. Mas Alexey e Larysa decidiram arriscar em função da união familiar. E encontraram uma família que os acolheu que foi uma bênção de Deus. Certamente não faltaram dificuldades e reajustes quotidianos, mas o resultado final foi a superação de um problema através da entreajuda.

Durante demasiado tempo, a Segurança Social demonstrou para com as famílias cujos filhos tinham de deixar o núcleo familiar uma atitude de culpabilização. Estas eram julgadas inadequadas e responsáveis pelos vários traumas que os filhos iriam sofrer. Isto é, eram a origem de uma situação negativa da qual os filhos tinham de ser separados. O próprio termo «tutela», que é utilizado para qualificar os serviços que se ocupam dos menores e das suas famílias, indica que a intenção não é tanto cuidar das relações problemáticas, mas defender a parte mais débil (a infância). Parece que hoje se vislumbra cada vez mais, pelo menos em alguns países da Europa, uma perspetiva inovadora segundo a qual a colaboração com a família natural da criança é o objetivo principal para que se alcance a estabilidade e o bem-estar relacional e afetivo.

Lendo esta experiência à luz do Evangelho, parece-me claro que o amor não se aprende sozinhos. De facto, ao ver os gestos de amor e de compreensão dos outros seremos capazes também nós dos mesmos gestos. O caminho mais seguro para ultrapassar o individualismo que os problemas nos criam é a ligação com as outras famílias. As famílias, como diz o Papa Francisco, têm a missão profética de serem «lugares onde se manifesta a Igreja, tornando-se ilhas de misericórdia no meio de um grande mar de indiferença». Quanto esta atitude de comunhão acontece no condomínio, na paróquia, no trabalho ou na escola, experimenta-se uma rede de ajuda recíproca que sustenta a fragilidade da família.

Famílias que ajudam famílias pode deixar de ser uma experiência localizada para passar a ser uma realidade social.