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Opinião

Escravatura dos tempos modernos

19 de Outubro de 2016

Ontem em conversa com uma amiga, com menos de 30 anos, não pude deixar de pensar que a escravidão continua a existir nos dias de hoje em Portugal. O horário de saída dela do trabalho é às 18h00, mas dizia-me que ninguém sai antes das 20h00. Quando alguém “se atreve” a sair “mais cedo”, ou seja, à hora estipulada, é olhado de lado.

Este exemplo fresquinho na memória não é único. Conheço, pessoalmente e por testemunhos, empresas em que acontece o mesmo. O horário é sempre esticado para sair mais tarde, e muitas vezes sem aviso prévio, e quem não consegue ter essa disponibilidade é mal visto e penalizado nas avaliações.

Quando se é jovem e sem outras ocupações ou obrigações, todas as energias e tempo são gastos com o trabalho. Mas quem tem filhos ou pais a cargo, por exemplo, sabe bem que é impossível conciliar esta loucura com os cuidados básicos mínimos a uma criança, já para não falar de ter tempo de qualidade com as pessoas com quem se vive.

Ter um filho, nestas organizações, é visto como uma coisa má, porque limita, diminui a disponibilidade para a escravidão que é trabalhar mais sem ser pago. Sim, as palavras são duras. Mas é disso que se trata. Este tipo de trabalho que “estica” sempre horários, “rouba” tempo ao descanso e à família, faz mal. Faz mal psicologicamente e fisicamente e nem sequer aumenta a produtividade. Isso é confirmado por vários estudos e a neurologista Teresa Paiva explica bem, neste artigo, que tem consequências na vida e saúde dos próprios trabalhadores, mas também na dos seus filhos.

Tantas vezes os próprios trabalhadores entrando na voragem do tempo e da concorrência não conseguem olhar para a sua própria situação e ver que estas exigências empresariais são descabidas. Tantas vezes acham que é normal porque outras empresas funcionam da mesma maneira. Mas não, não é normal e não devia ser habitual. Cabe-nos fazer por isso. Primeiro, definindo quais são as prioridades de vida. Depois, exigindo o básico: trabalho a mais tem de ser pago (em dinheiro ou tempo de descanso). Quando isso não é possível, é procurar empresas em que as pessoas sejam respeitadas. E felizmente também as há: com horários flexíveis; com definição de objetivos realistas para o trabalhadores, independentemente do horário que escolha fazer; com a possibilidade de trabalhar em casa. Queixarmo-nos da realidade sem fazer nada para a mudar não é cristão.