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Opinião

De Deus e do povo

07 de Setembro de 2018

Tenho passado o dia a falar com Santo António. Vejo-o perto na sua simplicidade, sustentando o Menino ao colo do monge que o equilibra com o próprio mundo. Penso depois como este homem, formado em três grandes escolas – Lisboa, Coimbra e Pádua –, mereceu o título de doutor da Igreja ao mesmo tempo que desceu ao mais íntimo do coração simples do povo.

Lembro sobretudo que ele foi declarado santo pela Igreja logo depois de morrer porque em vida o povo já o tinha canonizado. E não esqueço essa relação entre o ser doutor, sábio e pertença do povo. E de juntar numa só pessoa a altura da sabedoria e colocá-la acessível e fascinante ao homem comum. Isso o tempo não dissipou.

Podíamos ter algum ciúme de, em muitos pontos do mundo, ele ser mais de Pádua do que de Lisboa. Mas está ali, junto à Sé, o local comprovado do seu nascimento. Foi na nossa terra que viu a luz do dia e recebeu a água e a graça do Batismo. Foi em Coimbra que aprendeu a ser santo, na academia de Deus que responde a cérebros e corações.

Ao seguir as festas populares, os mais exigentes dirão que pouco têm que ver com a austeridade e santidade da vida do Santo de Lisboa. Mas têm que ver com ele, não o esquecem, trazem-no para a rua, revelam a dimensão da alegria, estimulam a identidade, a convivência, a interação com o quotidiano, a definição de cidade, num júbilo inocente, quase de criança que anima as praças, enche a noite de cor e sons que chegam ao coração de todas as idades e culturas. Dizendo melhor: são uma cultura no sentido mais genuíno e aberto, que estimula a vibração comunitária relembrando história e histórias, despertando afetos, aproximando diferenças sociais e exaltando formas de celebrar a própria vida. Sem deixar de fora a santidade. Não é tudo? É uma festa que entrelaça o sagrado e o profano sem medo de contágio. É desta matéria que se compõem os santos.