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Opinião

21/Fev

Querida Amazónia: que elementos o tocaram mais?

Há poucos dias foi publicada a exortação apostólica Querida Amazónia, documento guia no caminho de conversão ecológica iniciado com a publicação da encíclica Laudato si’ e longamente aprofundado durante o Sínodo de 2019. No presente documento o Papa expõe sobretudo os seus quatro sonhos para a realidade amazonica: social, cultural, ecológico, eclesial. Nas suas palavras: “Sonho com uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida. Sonho com uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a carateriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana. Sonho com uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas. Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.” (n. 7)

O primeiro aspecto a considerar é que vem expresso de modo muito claro o caminho sinodal seguido pelo Papa Francisco. O Santo Padre não quer repetir o Documento final do Sínodo, mas o assume plenamente, reenviando à sua leitura completa. Ao mesmo tempo, cita repetidamente os textos que construíram o caminho sinodal, ou seja, o Documento preparatório, o Instrumentum laboris, a Laudato si’, a Evangelii gaudium, além de uma vasta literatura ligada à Amazónia e ao Magistério. 

Outro elemento forte é a insistência na centralidade de Cristo e do seu anúncio na presença missionária da Igreja na Amazónia. Ao mesmo tempo que lutamos pelas causas ecológicas, culturais, sociais e econômicas, devemos ter claro que a primeira e principal missão da Igreja é evangelizar, promover o encontro com Cristo. O “quarto sonho” se fundamenta plenamente nesse princípio. Devemos recordar que este aspecto foi um dos mais criticados durante o Sínodo, com um grupo que acusava o Papa de paganismo e de se ater mais a questões políticas, sociais e ecológicas, do que à fé e à teologia. Todo o capítulo 4 é uma grande resposta a tais críticas. A Igreja não é uma ONG, por isso a sua presença na Amazónia deve ter um rosto específico, missionário. Entretanto, o Papa insiste que, ao mesmo tempo que anuncia sem cessar o querigma, a Igreja deve crescer na Amazónia através da inculturação e da escuta constante da realidade e dos povos locais.

Outro elemento importante é a omissão do tema do celibato e da ordenação de homens casados (cfr. n. 87ss), o que revela um equilíbrio e serenidade. Este não é um tema central na discussão sobre os problemas da Amazónia e certamente concentraria todas as atenções e discussões. Sabiamente o Papa deixou o tema de lado para enfatizar tantos outros elementos fundamentais. Não deixa de tocar, porém, em problemas pastorais e no necessário protagonismo (e formação) dos leigos, abordando também a questão do papel da mulher na Igreja; e que a ordenação de mulheres é uma falsa questão, pois significaria simplesmente a clericalização das mulheres e não a sua valorização (cfr. nn. 99ss).

A exortação não aborda o tema da comunicação que o Documento final, ao contrário, elabora longamente. Limita-se a reportar (no parágrafo 39) uma frase do Instrumentum laboris 123.e: “Além disso, «diante duma invasão colonizadora maciça dos meios de comunicação», é necessário promover para os povos nativos «comunicações alternativas, a partir das suas próprias línguas e culturas», e que «os próprios indígenas se façam protagonistas presentes nos meios de comunicação já existentes»”. Por outro lado se nota muito presente a questão das “narrativas”, que transmitem de geração em geração a cultura e as tradições indígenas, tema ligado à mensagem para a Jornada Mundial da Comunicação deste ano.

Obviamente há muitas formas de ler o documento Querida Amazónia e muitos elementos a serem analisados detalhadamente. O caminho sinodal significa exatamente que a publicação da exortação apostólica abre uma nova etapa que deve ser seguida e aprofundada em cada comunidade cristã. Esses pontos pareceram significativos para uma primeira reflexão, e a você, que elementos da Querida Amazónia tocaram mais fortemente?

24/Nov

«A Igreja nunca esteve tão bem»

Há uns meses, dirigindo-se ao clero de Roma, o Papa Francisco afirmou com grande confiança e entusiasmo: «Eu ouso dizer que a Igreja nunca esteve tão bem como hoje. A Igreja não cai: estou seguro disto, estou seguro!»

À primeira vista poderíamos dizer que esta afirmação é fruto do excesso de otimismo do novo Papa. De facto, fala-se muito em crise da fé, em perda de espaço para outras confissões religiosas, em secularismo, no crescimento de pessoas sem fé, em casos de pedofilia, escândalos e tantas outras coisas negativas.

Entretanto, se tivermos um olhar atento e universal veremos que a maior parte das afirmações contra a fé e a Igreja não passam de estereótipos e preconceitos, vindas em geral de um pequeno (mas poderosos) grupo que quer ferir e combater a Igreja para salvaguardar os seus interesses obscuros.

A realidade mostra que o Papa Francisco tem toda a razão no que diz. Os dados do Anuário Católico, por exemplo, mostram que nos últimos 10 anos o número de fiéis aumentou mais do que a população mundial. Também aumentaram o número de seminaristas, padres e bispos no mundo. Se a Igreja da Europa está em crise, a Igreja da Ásia, da África e da América está em visível crescimento e com projetos de grande valor que fazem realmente a diferença na construção de uma sociedade justa e igualitária. A Igreja, especialmente o Papa, é a única voz serena e equilibrada em muitos temas. Os pronunciamentos sobre a paz, a ética, a família, os valores e tantos outros temas são sérios e atuais, por isso são sempre referência no debate universal.

O próprio contexto da cultura digital oferece mais oportunidades do que ameaças à Igreja. Se por um lado não dá privilégios à Igreja e põe a fé ao pé de igualdade com diversas outras crenças e filosofias, por outro não é um ambiente hostil, como foi o período iluminista, ou o comunismo. Permite à Igreja resgatar elementos das suas origens como o testemunho sincero; ou a organização horizontal, colegial, fraterna, de comunhão e proximidade.

Penso também que nunca a Igreja esteve tão organizada e atenta às necessidades do mundo como agora. Nunca fez tanta caridade. Nunca esteve tão disposta a expor as suas fragilidades a fim de resolver os seus problemas. Nunca esteve tão unida na defesa dos seus valores e doutrina. Nunca teve os seus membros tão livres para expressarem as suas opiniões. Nunca esteve tão próxima do povo. Nunca valorizou e deu tanto espaço à sua base, os leigos. Nunca esteve tão convicta. Enfim, depois do período dos Apóstolos «nunca esteve tão bem como hoje». Por isso concordo plenamente com o Papa Francisco.

04/Jun

Comunicar é ir ao encontro

É impossível não ficar inquieto diante da questão fundamental e estruturante colocada pelo Papa Francisco na mensagem do 48.º Dia Mundial das Comunicações: «Como pode a comunicação estar ao serviço de uma autêntica cultura do encontro?»
Superado o primeiro impulso de refletir sobre as diversas possibilidades que as novas tecnologias da informação oferecem à comunicação e ao “encontro” com inúmeras pessoas do mundo todo, e sobre a incoerência da sociedade em rede que nos aproxima do distante e nos distancia do próximo, fui “tentado” a ir além e retornar ao elemento fundador da nossa fé: a encarnação do Verbo.
Deus – o Verbo, a Palavra – fez-Se homem. Este é o encontro fundamental entre a divindade e a humanidade e, como tal, modelo para toda a cultura do encontro.
Professamos que Deus criador do mundo Se foi manifestando à Sua criatura ao longo da história e num momento pontual Se revelou de modo definitivo. A Encarnação é por isso a comunicação perfeita entre Deus e o ser humano. E esta comunicação deu-se num encontro, Deus fez-Se próximo. Na verdade, a divindade uniu-se plenamente à humanidade em Jesus Cristo, e este é o ponto de partida para compreendermos a profundidade da mensagem do Papa Francisco e a necessidade de utilizarmos a comunicação para criarmos uma verdadeira cultura do encontro.

A mensagem fala do comunicar como um «tomar consciência de que somos humanos, filhos de Deus», sendo o seu objetivo a “proximidade”. Comunicar é fazer-se próximo, como Deus na Encarnação. Entretanto, esta proximidade concretizada em Jesus Cristo é dinâmica e edificante. A divindade não só se aproxima da humanidade, mas envolve-a e transforma-a. Deus revela-Se, mostra como é e assume inteiramente a condição humana, partilha da sua condição.
Algo semelhante é o que acontece com o bom samaritano,parábola utilizada pelo Papa e que nos ajuda a compreender que comunicar é ir ao encontro, aproximar-se; e aproximar-se é cuidar, partilhar de uma condição, ter compaixão (sentir ou sofrer com). Não basta “circular pelas estradas (digitais)” e “ver” as pessoas. É preciso “sentir com”, “criar com”, partilhar mais que palavras e imagens bonitas e pré-elaboradas. É preciso envolver-se, comprometer-se, como o bom samaritano.
Comunicar é também assumir riscos, superar o medo de “tornar-se impuro”. É sair do nosso conforto, deixar os nossos “palácios”, como o samaritano que parou para ajudar um desconhecido, como Deus saiu do Seu Reino dos Céus para vir ao mundo. Entretanto, o samaritano não “se contaminou”, mas sim salvou um homem; e em Jesus Cristo a divindade não se tornou impura, mas sim a humanidade que foi salva, redimida. Assim chegamos a uma questão delicada: A Igreja hoje quer evitar “contaminar-se” ou quer salvar?

Comunicar não significa estar num “púlpito” ou numa “cátedra” a proferir palavras, por mais verdadeiras e profundas que sejam. Comunicar é ir ao encontro e possibilitar o encontro, criando tais condições. A Igreja deve ser a primeira a dar o exemplo, insiste o Papa Francisco. Deve ser a primeira a sair do seu conforto para ir à procura do outro, aceitando plenamente a sua condição.
Assim como Deus “deixou” a Sua perfeição para assumir a limitação humana em Jesus Cristo, para que a verdade do Evangelho toque o mundo (o “século”) é preciso deixá-la misturar-se, ir até as periferias. É preciso deixar o púlpito e a cátedra para ir à rua e às praças. «É preciso uma Igreja que consiga levar calor, inflamar o coração», diz o Papa. «É preciso saber-se inserir no diálogo com os homens e mulheres de hoje, para compreender os seus anseios, dúvidas, esperanças, e oferecer-lhes o Evangelho. [...] É importante a atenção e a presença da Igreja no mundo da comunicação, para dialogar com o homem de hoje e levá-lo ao encontro com Cristo: uma Igreja companheira de estrada sabe pôr-se a caminho com todos.»
Uma verdadeira cultura do encontro brota da plena comunicação, que começa pela disponibilidade, abertura e doação, para descobrir quem é o nosso próximo e a ele testemunhar Aquele que é modelo de comunicação e de encontro. 

19/Nov

«Comecem sempre pelo presépio»

Ao aproximarmo-nos do final do ano, preparamo-nos também para uma série de festas e celebrações, que são sempre momentos alegres e especiais. Momentos para partilharmos com os amigos e com a família, que este ano esteve em destaque, com a realização da primeira etapa do sínodo dos bispos, e ao longo do próximo ano será ainda objeto de muita reflexão. Para a Sociedade São Paulo e a Família Paulista este mês de novembro reveste-se também de especial cor. No próximo dia 26 celebramos a memória litúrgica do nosso fundador, o beato Tiago Alberione. Um verdadeiro apóstolo da comunicação, que há 100 anos deu início a uma nova evangelização através dos media. Um profeta que deu à Igreja novos meios para comunicar o Evangelho. Para recordar esta data, neste mesmo dia 26 será anunciado em Portugal o vencedor da primeira edição do Prémio PAULUS de Edição. Uma iniciativa que procura destacar a produção teológica nacional e incentivar universitários cristãos. Ao todo foram 31 trabalhos inscritos, de sete núcleos universitários diferentes, o que muito nos alegrou. A qualidade do trabalho vencedor certamente também satisfará todos os nossos leitores. Desejamos ainda que muitos outros jovens se sintam motivados para participarem da próxima edição.
No dia a seguir, 27 de novembro, os paulistas e outros membros da Família Paulista serão recebidos pelo Papa Francisco numa audiência privada. Estamos ansiosos para ouvir a mensagem do pastor que é também um grande comunicador e certamente admirador do beato Alberione, como já demonstrou algumas vezes. Nesse mesmo dia encerramos o Ano Centenário da Fundação dos Paulistas, rendendo graças a Deus por esta missão que tanto bem procura fazer à Igreja e aos cristãos.
Nascemos para «viver e dar ao mundo Jesus Mestre», e ao longo destes 100 anos muitas iniciativas no campo da comunicação foram desenvolvidas em cerca de 40 países. Que o Senhor nos anime e inspire muitas mais, suscitando também muitos colaboradores nesta missão de transmitir ao mundo a verdade do Evangelho.
A todos os paulistas que iniciavam novas comunidades, o beato Alberione dizia: «Comecem sempre do presépio.» Queria dizer que uma nova obra de evangelização deve começar sempre simples, modesta, humilde. Mas, ao mesmo tempo, deveria começar com o que é fundamental: centrada em Cristo. Por isso hoje convido todos a prostrarmo-nos diante do Jesus Menino (nossa Luz e Verdade) do presépio para pedirmos pelas nossas famílias e por todas as iniciativas da Igreja que ajudem a promover a fé, a caridade e a esperança.