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Lançamento

16/Jul

Cárcere invisível

Ficha Técnica
Título: Cárcere Invisível
Autor: Francisco Costa
Categoria: Clássicos da Literatura Espiritual Portuguesa
Formato: 15.00 cm x cm 23.00
Páginas: 432

UMA PARÁBOLA DE PORTUGAL?

Quem é Francisco Costa? É um romancista católico de Sintra nascido em 1900 e falecido em 1988. Publicou o romance Cárcere invisível (426 págs., PAULUS 2018), a mais conseguida realização literária do que se pode chamar o “romance católico”.


Esta obra, sendo hoje em dia muito desconhecida, é, no entanto, quanto mais viva e atual porque de flagrante curiosidade, que até daria um belo filme histórico, bem vistoso, claro está, para todos. Costa era católico e monárquico, e é o quanto baste para a sua defeção dos ambientes literários portugueses. No entanto, é um autor que transmite de forma magistral o drama de uma existência humana privada de Deus.

Em que terras portuguesas se passa este romance? Em Lisboa (sobretudo no triângulo Campo de Sant’Ana, Baixa e Chiado), Sintra, na serra do Caramulo, em Coimbra, em Beja e Algarve e, de novo, Caramulo, onde tudo acaba.
Os protagonistas: um médico recém-formado, ateu, comunista marxista-leninista, «azedo e desmancha-prazeres», mas muito dedicado aos doentes. Foi obrigado a um “passeio político” durante certo tempo para a Madeira por ter visitado Moscovo. Daí regressou a Lisboa e aqui recomeçou uma breve prática clínica que o levou profundamente a conhecer o paupérrimo e degradado meio social que se vivia na capital. Ao mesmo tempo, bem entrosado no seio familiar cristã e humanamente irregular, este jovem vive as primeiras paixões amorosas sem consequências especiais senão de enraizamento materialista cada vez maior quanto às conceções da vida, da família, do amor e da religião.

Passa pelo Caramulo, onde contacta o país dos tuberculosos. De seguida instala-se em Coimbra, onde partilha vida com um estudante, futuro padre “antibeatas”, de nome Lima. Por fim, de Coimbra muda-se definitivamente para Beja para aí ser delegado de saúde, onde ganha boas famas, inclusive por «tratar pobres de graça», no meio daquelas populações bastante empobrecidas, embora em contínuo contacto com as famílias nobres, burguesas e latifundiárias da proverbial “catolicíssima Beja”, qual “filho” nelas acolhido.

Desta forma, conhece bem o Alentejo profundo da primeira metade do século XX, donde faz umas escapadas, quase sempre por razões amorosas, até ao Algarve e Lisboa, mudando-se, definitivamente, para o Caramulo. Daqui tenta fazer uma última escapada que o levará, em correria médica, até Beja e ao Algarve para rapidamente depois regressar à serra beirã. Mas o destino troca-lhe as voltas… Tem apenas a sorte de o antigo padre Lima residir agora em Tondela, sendo por isso o primeiro a aparecer no local do acidente.

Porquê Cárcere invisível? Cárcere invisível é uma parábola de Portugal. É um título igual a tantos outros que se dão (e se deram) ao “mistério” de Portugal, como “quinta à beira mar”, “península” deslizante afastada da Europa, “país amordaçado”, “país das Quinas”, “dos Tugas”, “terra de fé e de alarves”, “parvónia sem vida”, “retângulo desigual”..., e muitos, muitos outros assim. De facto, neste livro se descreve a “balbúrdia republicana tão burguesa como a anarquia”.

E pergunta-se: «Que fizera a república? Expulsara o rei. Maltratara o padre e esgatanhara-se a si própria. Berrando pela igualdade política, não abordara sequer os preâmbulos da igualdade social. Portanto, de prático não fizera nada!» Bom, este é só o cárcere social, mas não o universal do nosso país. A outra parte que falta é o “cárcere interior” que cada português leva e sente dentro de si, e que é, sem dúvida alguma, a parte mais trágica e dramática a debelar. Quem, como e quando se libertará Portugal?


Texto / Pe. Mário dos Santos