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Opinião

«A SÉRIO?»

12 de Abril de 2018

Tenho uma memória (ou não tenho) que nunca me permitiria fazer aqui um lençol descritivo da quantidade de vezes que digo “a sério?”
A sério que eles fizeram isto? A sério que disseram aquilo?

Se por um lado poderia apenas desejar que esta minha característica ingénua mudasse de poiso e me fizesse passar menos vezes pela “vergonha” de parecer “uma tontinha” que não consegue acordar para a vida do seu sono de beleza, por outro só posso continuar a desejar dizê-la tantas vezes que se torne também uma expressão característica dos que me estão mais próximos (como as miúdas).

Vou continuar a preferir ficar incrédula com o que ouço e vejo do que normalizar situações que deixam muito a desejar do ponto de vista do coração ou do carácter. E têm sido muitas, infelizmente. Desde líderes mundiais que tomam decisões que nos afetam a todos como se estivessem a jogar Monopólio, a figuras de influência que magoaram e traumatizaram muita gente e tiveram anos de amnésia sem se lembrar de que o tinham feito… responsáveis de instituições que saltitam entre o que deveria ser a nobreza da ajuda ao próximo e um mundo escuro de alegado aproveitamento pessoal… dirigentes desportivos que fazem arruaceiros parecer meninos de coro… figuras políticas a quem não chega o próprio currículo. São só alguns exemplos, grande parte dos quais só neste primeiro trimestre do ano, de que me consigo lembrar e que tantos “a sério?” me arrancaram.

Não é má esta escolha pela indignação, o que é realmente mau é o estado permanente de incredulidade com que temos de conviver por serem tantas as atitudes do lado errado da pergunta.

Geralmente essa pergunta sai-me genuinamente indignada ou espantada. O melhor uso que posso fazer disso é transformá-lo em momentos “mãe-filhas”, explicando-lhes o mundo, na esperança de que cresçam com valores e mantenham a mesma capacidade de se espantar com o que não bate certo.

“A sério, mãe?” Mas isso é muito injusto, isso não faz sentido nenhum, como é que alguém é capaz de uma coisa dessas? A resposta a isto é cansativa (obriga a ponderar e a ajustar os argumentos à sua idade), mas não é que seja difícil. E não deixa de ser bonito ver a justiça, a retidão e até a clareza e simplicidade do “preto e branco” que lhes movem as questões. Piores de responder são os que vêm depois, com as consequências. E tantas vezes as consequências não são nenhumas, ou são ridículas. E isso é tão mais difícil de explicar sem que percam a fé nos homens; isso é tão mais difícil de explicar quando lhes queremos provar que os seus atos têm consequências às quais têm de responder; é tão mais difícil quando lhes queremos mostrar que a justiça existe, funciona e é equilibrada e proporcional.

É bom manter a capacidade de nos questionarmos, mas convém que a pergunta faça sempre sentido e seja sempre real e não apenas um tique de linguagem adquirido.

É um dos meus desejos. Que o número de “a sério?” sem um correspondente “ah, bom, afinal não era normal” possam, pelo menos, diminuir e que as consequências dessa “anormalidade” sejam visíveis e proporcionais.

Para que nos possamos indignar com frequência, para que possamos continuar a responder “sim, isto espanta-me muito” quando alguém condescendente sorrir à nossa ingenuidade, e para que nos importemos com o que acontece à nossa volta… SEMPRE.