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Opinião

A arte de reconstruir

06 de Dezembro de 2018


Conhecem-se cada vez melhor os sinais dos tempos. Melhor dizendo, do tempo. As previsões são cada vez mais credíveis porque os meios de informação meteorológica também estão cada vez mais aperfeiçoados. Ainda assim, as previsões não são sempre de fiar. O irmão vento comandado pelos pólos muitas vezes surpreende aquilo que seria quase certeza técnica.
 
Por isso, quando nos falam em furacão, pelo sim e pelo não, são tomadas precauções deixando sempre aberta uma hipótese de poder chegar algo pior que as previsões mais anunciavam. O certo é que os cientistas, os intérpretes da sabedoria popular ou mesmo os que desprezam qualquer previsão rigorosa sobre o estado do tempo, acautelam-se porque, para crentes ou descrentes, há forças e dinamismos na natureza que a ciência não domina e o homem no momento de descontrolo das forças do ar e da terra, reduz-se à sua fragilidade e respeita a grande máquina da natureza que não pede autorização para fazer explodir o frio ou o calor, a bonança ou a tempestade.
 
No momento extremo da impotência para controlar a natureza, o medo avança e o melhor discurso dos mais arrogantemente destemidos é o silêncio encolhido e o tremor que percorre todo o corpo face à imprevisibilidade do desfecho. Destes recantos saem perguntas medrosas e até para muitos é preferível admitir a hipótese do sobrenatural em lugar do caos lógico ou emotivo. Não temos de nos envergonhar de tocar este extremo que muitas vezes em nome de uma valentia petulante queremos infantilmente ocultar.
 
Um sismo é uma prova cabal da limitação do nosso saber. Não se prevê, não se anuncia e muitas vezes obriga à reconstrução radical de um povoado. Surpreendentemente, é um aviso sobre o que foi mal pensado e construído. É uma oportunidade para dar lugar ao novo. Reconstruir é fazer renascer.
 
O universo é um grande livro que nunca sabemos de cor e nos merece um respeito pelos sinais com arremedo de infinito que nos impõe.
 
O que temos de inevitavelmente aprender é a leitura dos sinais dos tempos. Que podem ser vistos como fenómenos naturais que nos fazem dobrar a cerviz, ou revoam sobre todas as lógicas e nos deixam perplexos na confrontação permanente com as grandes perguntas sobre o mundo, sobre a vida e no atrevimento de que tudo sabermos explicar. Muitas vezes deixa-nos o vazio à espera da pitonisa que responda às nossas adivinhas como se fossem essas as grandes perguntas sobre a vida.
 
Complexo animal é o homem. Ironicamente, é na simplicidade que  encontra resposta para as questões mais rebuscadas da vida.