Opinião

Uma encíclica que convoca à ação

23 de Junho de 2015

O Papa Francisco redigiu uma encíclica extraordinária. Não no sentido da novidade, já que serão poucas as novidades num texto tão longo, mas no sentido da responsabilização de todos pelo cuidado da Casa Comum, a mãe terra, que é também ela de todos.

Temos vindo, nos últimos séculos, a ser informados da destruição que está a ser feita do planeta terra. Procuramos encontrar culpados fora da nossa esfera de intervenção, o que se revela sempre fácil: é culpa das indústrias, é culpa dos que vivem nos países mais pobres que só acumulam lixo (apesar de sabermos que esses países produzem uma ínfima parte do lixo que os países desenvolvidos produzem), é culpa da vizinha do lado, mas nunca é culpa minha, e nunca sou eu quem tem de mudar os hábitos e o estilo de vida.

Com esta encíclica, tudo isso acabou: sou eu, que me autointitulo cristão, que tenho de mudar o mundo que tenho ao meu redor. Chega de me esconder na sombra da culpa dos outros, diz o Papa. Todos e cada um, desde o mais anónimo cidadão até ao presidente de uma nação, desde o trabalhador da manutenção ao CEO das empresas que mais poluem, todos, se nos queremos considerar cristãos, temos de mudar as nossas ações para com o nosso planeta. Se até aqui poderia apenas ser uma ideia de uns, a partir de agora é claro como água: os nossos atos contra a natureza são pecados contra Deus, dos quais temos de prestar contas na nossa confissão e, mais tarde, quando formos colocados perante o Criador.

Sabemos que este apelo é sério quando vemos candidatos norte-americanos à presidência como Jeb Bush, recém-convertido ao catolicismo, mandar o Papa ficar calado e não falar sobre ambiente, política ou economia. Ele sabe, como todos sabem, que o Papa tem razão. E por isso não quer que a sua voz se levante, porque sabe o peso que essa voz tem, sabe a mobilização que essa voz pode ter.

O Papa refere na sua encíclica que as nossas escolhas individuais podem influenciar o mercado, e as grandes empresas também o sabem. É por isso que nos inundam de publicidade, para nos impedir de pensar e escolhermos por nós. Mas não mais: é hora de tomarmos decisões com base nas nossas convicções de cristãos, e de optarmos por produtos que respeitam a nossa casa comum e não a destroem. São mais caros? Sim, um pouco, mas não por muito tempo. Comecem a comprá-los e verão os preços a baixar com a força do mercado e da lei da procura e da oferta.

O mundo é nosso. É altura de o reclamarmos de novo e de evitarmos a sua destruição, para que os nossos filhos, netos e gerações vindouras possam disfrutar da Criação de Deus da mesma forma como nós, os nossos avós e antecessores o puderam fazer.