Opinião

Um homem católico tem de ser um presidente católico?

02 de Fevereiro de 2016

Marcelo Rebelo de Sousa venceu"sem espinhas" as eleições presidenciais do passado domingo. Não foi uma surpresa, nem sequer o facto de ter sido à primeira volta. Apesar dos muitos apelos à necessidade de uma segunda volta, a verdade é que os candidatos à esquerda eram demasiados e espartilharam os votos, deixando o caminho aberto para uma vitória folgada e sem grande contestação do professor Marcelo, apenas ultrapassado pela taxa de abstenção, que continua a níveis preocupantes.O professor/político/comentador fez uma campanha discreta, sem grandes apontamentos mediáticos, nem sequer o apoio declarado dos responsáveis partidários de direita, campo natural do candidato, que assim andou a tentar, com notório sucesso, ganhar pontos também à esquerda. Uma estratégia que, consciente ou não, começou a ser traçada quando iniciou o seu percurso de comentador televisivo há anos, onde criou uma imagem de imparcialidade que o ajudou a chegar a eleitores de todos os espectros políticos.

Muito vincada no novo Presidente da República é também a sua fé. Já admitiu que rezava o terço todos os dias, e eram habituais as suas presenças em eventos de âmbito religioso, maioritariamente católico, onde nunca se coibiu de falar da sua fé, tendo inclusive participado, já como candidato a Belém, nas "Conversas" sobre Deus com Maria João Avillez na Capela do Rato, em Lisboa. Terá sido essa influência que o levou até a citar o Papa Francisco no seu discurso de vitória.

Por via desta religiosidade assumida, foram notórias algumas críticas mais recentes ao comportamento do candidato no que toca a assuntos polémicos para a Igreja, como é o caso da eutanásia e da adoção por casais do mesmo sexo, diploma que, reconheceu em entrevista, promulgaria sem reservas. Esta disponibilidade para adotar uma agenda mais de esquerda causou espanto e consternação na ala católica do país, e será curioso perceber se o presidente Marcelo irá ter o mesmo comportamento e as mesmas opiniões do candidato Marcelo, que parecem ir contra as supostas opiniões do católico Marcelo.

A fé não é algo privado, ou que se utilize apenas no recanto da igreja. A fé influencia todos os aspetos da vida de um católico, e deveria sobrepor-se a todos os outros interesses, ou influenciá-los, e isso implica que, em determinados assuntos, haja uma posição clara e inequívoca, que certamente chocará com a população que não é católica. Pode dizer-se que o presidente da República tem como função garantir o cumprimento da Constituição, mas o acolhimento de propostas que colocam em causa o direito à vida atenta contra direitos constitucionais, segundo o ponto de vista de parte da população.

Será curioso perceber que relação manterá o presidente com a fé que sempre disse professar, e até que ponto os seus valores católicos foram colocados em causa apenas para efeitos de campanha...