Opinião

Salvar vidas no Mediterrâneo

30 de Abril de 2015

Porque nas dúvidas que me surgem relativamente ao ser humano há sempre políticos, diplomatas e afins pelo meio, este texto vai para eles.

Cerca de 1000 vidas são perdidas em dois dias e o melhor que temos para lhes dar é a "Operação Tritão"? Uma operação que contará com 3 milhões de euros, num cenário mais otimista, com seis. E que surge, como sempre, depois da tragédia ser tão grande que já não se consegue fingir que não se viu.

Ainda que o valor não merecesse explicação quando estamos a falar de salvar vidas, três milhões, ou que sejam seis, à escala de uma "união" de países da Europa parece-me pequeno. Mas afinal de contas eu não percebo nada de economia.
Mas na verdade também não preciso de perceber, porque lá está, estamos a falar de salvar vidas no mais elementar significado destas palavras.

As pessoas que se entregam a traficantes e embarcam numa viagem destas já precisavam de ser salvas antes sequer de terem posto a hipótese de colocar a sua vida e das suas famílias dentro de um barco que as pode levar à morte.
E não, o comandante tunisino do último naufrágio não é o único responsável pela morte de centenas de pessoas. É-o diretamente, sem dúvida, e até dá jeito que o seja. Mas a comunidade internacional (e não apenas os países europeus também) tem a sua responsabilidade indireta.

E não vale questionar se "então agora temos de resolver os problemas dos outros?" Estamos a falar de direitos fundamentais, o mais elementar de todos, o direito à vida e um mundo globalizado não pode não assumir responsabilidade pela proteção de vidas.

A começar ainda nos países de onde vêm estas pessoas sobre cujos conflitos, mais direta ou indiretamente, também temos responsabilidade. Infelizmente. E também infelizmente fazemos tão pouco. Tantas vezes por interesses pouco nobres. Outras tantas porque resolvê-los só traz transtornos e poucas compensações.

Mas os benefícios da globalização não podem ser apenas chamados à mesa quando se trata de interesses. Porque para as pessoas, a mais-valia da globalização é a possibilidade de haver mais gente a olhar por si. É o alargarmos a nossa escala de responsabilidades no que diz respeito ao próximo; alargarmos a nossa capacidade de intervenção na sua defesa e na solidariedade para com os outros seres humanos, com os outros países.

Não é possível cooperar e ajudar os países de onde vêm essas pessoas? Não é possível investir num patrulhamento que além de intervir militarmente para destruir essas embarcações, o que já é um contributo ainda assim, possa intervir para os salvar?

É preciso dinheiro? Claro. A Itália conseguiu pelo menos nove milhões na sua operação Mare Nostrum. A Europa só consegue seis? Eu não percebo de economia, mas este valor parece-me mal somado.

Mas se precisarem estamos aqui. Precisam de ajuda monetária diretamente para a Tritão? Peçam! Nós, todos os europeus que não têm milhões e que já contribuem para que com toda a certeza vocês tenham mais de seis para salvar vidas, nós que temos entre nós milhões em risco de pobreza, ainda assim, conseguiremos certamente fazer-vos ver que as vossas contas estão mal feitas.

Porque embora política e economia por vezes me façam duvidar, eu continuo a acreditar nas pessoas e na sua capacidade de se superarem pelos outros.