Opinião

Sair da indiferença

06 de Julho de 2016


Nos últimos dias, têm sido vários os ataques a civis. No aeroporto de Istambul, um bombista suicida matou 44 pessoas e feriu quase 240. No Bangladesh, um grupo armado matou 20 reféns num restaurante em Daca. Ontem, domingo, em Bagdade mais de 200 pessoas morreram num atentado. Os números não têm rosto e os locais são geografica e culturalmente distantes de nós, europeus.
Tive o privilégio de conhecer Pascale Warda, ex-ministra do Iraque. Uma mulher que – além de ser ativista de direitos humanos e uma força da natureza na defesa do seu povo perseguido, torturado e morto – tem marido e filhas. Alguém que tendo nacionalidade francesa, escolheu viver no Iraque, o país que diz tanto amar. Quando ouvi as notícias de atentado em Bagdade deste domingo, lembrei-me imediatamente dela. Estará bem? Há um rosto no meio daqueles desconhecidos que me aproxima daquele país, daquela gente.

Por estes dias, a UNICEF emitiu um relatório sobre a situação das crianças iraquianas. Uma em cada cinco está em sério risco de morte, violência sexual, rapto ou recrutamento por grupos armados. A Heavy Price for Children (Um Preço Pesado para as Crianças) revela que nos últimos dois anos e meio, quase 1500 crianças foram raptadas do país, uma média de 50 cada mês. São usadas para tráfico sexual ou treino militar… E os números ganham rostos e nomes outra vez. Ouço, de novo, o relato de Pascale que, meses depois, não me sai da cabeça: Christine de três anos, raptada do peito da mãe e de quem não se sabe nada até hoje… Vejo diante de mim a minha própria filha de quase dois anos, a minha sobrinha de três. E Christine torna-se tão familiar que dói. Dói mesmo.

Estes números são pessoas, seres humanos como nós, com vidas e famílias. Precisamos de lhes criar proximidade, desligar o botão que nos protege destas notícias e cria a «globalização da indiferença», como diz o Papa. Precisamos calçar os seus sapatos, pormo-nos na sua pele por instantes. Só assim seremos impelidos à ação. Temos de passar de “indiferentes” a “diferentes”.