Opinião

24/Nov

Políticos ligados à rede

Numa sociedade em que as redes sociais ganharam posição de destaque na proliferação de informação, em que qualquer pessoa com uma câmara e uma conta “faz” e “dá” notícias, seria de esperar alguma contenção nas reações; alguma coisa parecida a “vamos lá pensar antes de começar a ‘gritar’”.

Já temos a “astrologia do gritinho” (somos todos astrólogos e todos os Leões são todos vaidosos); temos a “psicologia do gritinho” (somos todos psicólogos e todos os meninos irrequietos são hiperativos).
Queremos mesmo a “política do gritinho”? (isto tornou-se viral, portanto, temos que “gritar” como o resto das pessoas e fazer alguma coisa).

Naturalmente que este gritar não é no sentido literal (na maioria das vezes, pelo menos); por gritar entenda-se uma espécie de “reagir a quente”.
Sim, as redes sociais são propícias a isso, mas no caso dos políticos no geral, e do governo em particular, causa-me uma certa apreensão que se corra a tecer críticas e protestos ou até a tomar medidas, porque o assunto “rebentou” nas redes.

Dando dois exemplos muito concretos: o caso dos seguranças da discoteca de Lisboa que agrediram duas pessoas, e o consequente encerramento do espaço, e o jantar da Web Summit no Panteão Nacional que levou a que o governo revelasse a vontade de alterar a lei e passar a proibir eventos em monumentos que ponham em causa a dignidade dos mesmos.

Antes de mais, acho importante esclarecer que, no geral, e numa tomada de decisão em condições perfeitas, estou de acordo com o governo em ambas as decisões. Mas não é por isso que fico mais tranquila.

É que a ideia que passa é a de que temos um governo (e uma oposição, que rapidamente apanha a boleia dos “gritos”), que reage à agitação das redes sociais. Assim, a quente, e sem pensar muito. “Ainda bem que reage; ao menos faz alguma coisa”, dir-me-ão. Mas faz alguma coisa, quando? E com que dados disponíveis? Não havia já inúmeras queixas relacionadas com o comportamento dos seguranças da discoteca em causa? Não haverá outras tantas, de outros estabelecimentos que continuam a funcionar?

E a reação tão pronta, a condenar e a apelidar de indigno um jantar enquadrado legalmente? E em que nem deu para perceber muito bem se sabiam exatamente se havia ou não havia sepulturas na dita sala. Já para não falar do que assusta um tão pronto “sacudir a água do capote” com a menção à aprovação de decreto pelo governo anterior. Mas então: desconheciam os regulamentos a vigorar nos ministérios do país que governam ou dois anos não chegaram para mudar uma coisa simples?

A oposição faz exatamente o mesmo, simplesmente não toma decisões. Pensa-se tão pouco, aliás, que nem se preparam para os tiros nos pés que acabam por dar, ao esgrimir críticas, às vezes muito pouco polidas, em assuntos sobre os quais não podem negar responsabilidades em opiniões tão contrárias às decisões que tomaram enquanto governo.

Reagir a quente pode significar, mais cedo ou mais tarde, agir sem conhecimento dos dados todos e não são precisas grandes explicações para saber o quanto isso pode ser perigoso. Estamos todos descansados quanto aos futuros “casos virais” e consequentes decisões em rede? Se calhar não devíamos.

28/Jan

Aproximar-se do outro e deixá-lo pensar

A mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais (1 junho 2014) fala sobre a «comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro».

Entre outras coisas, Francisco aborda a questão da visibilidade das divisões acentuadas entre os que têm e os que não têm, a questão da importância da comunicação como promotora da solidariedade e da aproximação entre seres humanos, o perigo que pode constituir a velocidade de informação, a riqueza e ruído que pode constituir a variedade de comunicadores, a inclusão e exclusão que podem promover os vários meios de comunicação.

Embora a mensagem se refira particularmente à era digital, o Papa foi certeiro em tudo o que deve preocupar-nos enquanto comunicadores. Embora faça parte do mundo dos media, há muitos aspetos sobre os quais sou muito crítica.

E nem de propósito, desde a altura do Natal, este bombardeamento irrefletido e que não permite reflexão, esta falta de espaço e de silêncio para nos deixar pensar, o arrastão de "opiniões" porque alguém escreveu a sua de maneira eloquente e então nem se questiona, tem-me deixado num misto de preocupação e incredulidade.

Não preciso de recorrer a nenhum exemplo concreto, porque há vários. O que senti, como telespectadora, leitora e cibernauta foi que por uma série de dias seguidos não me estavam a deixar respirar, não me estavam a deixar pensar.

O pior desta sensação, agora como jornalista, é aperceber-me de que provavelmente, estes transmissores de informação, talvez nem se tenham dado conta de que o faziam. As exigências de audiências, de "likes" e "partilhas", de se ser o primeiro a transmitir, de contar na lista dos "fazedores de opinião" têm tirado espaço, da minha perspetiva, aos próprios comunicadores por excelência.

Deparei-me, na internet, com pessoas habituadas a lidar com a comunicação e com as novas tecnologias, a reencaminharem informação errada ou até já fora de tempo porque simplesmente não se questionaram. E estamos a falar de pessoas com preparação para isso. Isto para não falar daquelas com menos ferramentas para questionar e cujo problema da "credulidade" se acentua com a internet e as redes sociais.

Tem muita razão o Papa Francisco quando defende uma comunicação ao serviço da cultura do encontro, tem muita razão quando olha para os meios de comunicação social como ferramentas privilegiadas de solidariedade e aproximação entre pessoas. E tem muita razão nos perigos para os quais nos alerta.

É um bom ponto de partida, para crentes e não crentes, o documento que o Papa nos deixa para o Dia das Comunicações Sociais. É principalmente uma boa "chamada de atenção" para os que trabalham com a comunicação. Trabalhar ao serviço dos outros, não manipular e não se deixar manipular são desafios antigos e constantes. Conseguir fazer brilhar todos os aspetos positivos da comunicação, um dever. Porque, na verdade, saber comunicar continua a ser um poder, pelo qual nós é que somos responsáveis e não a internet, ou a televisão, ou os jornais.

Como diz, e bem, o Papa, «a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica.»

02/Fev

Escolheremos o amor

A cobardia tem rosto, infelizmente demasiados rostos. Não podemos e não queremos esquecer os atentados de Paris, como não esquecemos o 11 de setembro, o Quénia, Beirute e todos os homicídios gratuitos como o do jornalista sírio há 2 dias.Mas não os vamos carregar como feridas abertas. As nossas feridas vão sarar e passarão a ser mais um conjunto de cicatrizes que exibiremos orgulhosamente, porque teremos sobrevivido às dificuldades.

Essa é uma das diferenças entre corajosos e cobardes. Não há lugar a feridas e a cicatrizes quando se fala de cobardia e de ignorância. Quando se é motivado pelo ódio, não há nada para aprender, nada para sarar e nada para regenerar. Não há nada de que se orgulhar, não há superação, não há martírio nem heroísmo.

Em todas as tragédias, por cada «alma morta», há centenas (só para não me chamarem exageradamente otimista) de almas boas que ganham força.

Porque é o amor que move montanhas e que faz o mundo avançar. Nunca o ódio.

Tenho a certeza de que as dores e as vidas que ainda choramos hoje nos vão facilitar o estender de mãos e o abrir de braços. Porque somos mais bons do que maus, em número e em traços pessoais.

Ao Homem, que é bom,importa honrar a vida dos que a perderam por motivo nenhum. E a melhor maneiraque temos de honrar alguém é amando mais, a sua memória e o seu legado, egarantindo que essa morte não foi em vão nem serviu os interesses de quem acausou.

A coragem nunca foia ausência de medo, foi sempre a sua superação.

E há alguma dúvidade que somos corajosos?

É impossível termos dúvidas quando sabemos que no meio das vítimas mortais há heróis que o são porque deram a vida por quem estava à sua volta; é impossível termos dúvidas quando um viúvo nos garante que não cederá ao ódio e que ensinará ao filho o amor; não há lugar para a desconfiança quando alguém abre a porta da sua casa para acolher dezenas de feridos ou quando alguém ficou ferido porque tentou ajudar quem já não se conseguia proteger sozinho; sabemos que a vitória é do amor e da esperança quando um pai tranquiliza o filho dizendo-lhe que as flores vencem as armas.

Nós escolheremos sempre o amor.

09/Jan

A banalização da violência

No que à exibição de imagens diz respeito, posiciono-me no cinzento. Não sou daquelas pessoas que acha que há imagens proibidas, porque na verdade há alturas em que elas são mais do que necessárias, nomeadamente quando o mundo parece andar a dormir ou a ignorar escandalosamente problemas que têm de ser resolvidos, a bem dos direitos humanos e da humanidade.

Mas isto não quer dizer que podemos fazer da violência o isco para as audiências subirem. E isto quer ainda menos dizer que podemos repetir, até à exaustão, não só nos diversos telejornais de diferentes horários, mas (completamente ridículo) no mesmo telejornal, imagens sem qualquer edição, ou com um nível de edição que nos faz parecer que ela não existiu. E não, a verdade não fica distorcida quando a edição a que me refiro é a que tem como objetivo respeitar a dignidade da pessoa.

O exemplo que mais me chocou nos últimos tempos foi a da morte do embaixador russo na Turquia. Eu sou jornalista e, acreditem, demorei alguns minutos a processar que os comentários que os senhores estavam a tecer em estúdio e as imagens que estavam a passar estavam total e completamente ligados, no tema e no tempo. Primeiro, porque se foi repetindo a reprodução do acontecimento (o senhor a entrar no museu, o som dos tiros e depois, o senhor estendido no chão) e depois porque se parava a imagem no embaixador russo estendido no chão (mas parava-se por longos segundos, de modo a que conseguíssemos ver bem a cor do fato, da camisa, o número dos sapatos, etc). E enquanto isto acontecia, os senhores comentadores falavam sobre todo o contexto (as motivações, os porquês, o que ia acontecer de seguida entre a Turquia e a Rússia), com aquele senhor na imagem, mas praticamente sem se referir a ele. Esta falta de sensibilidade foi o que me levou a estar alguns minutos sem perceber que aquilo que estava a ver era o “assunto” sobre o qual estavam a falar.

Uma pessoa, cuja vida se estava a esgotar, ocupou a tela da televisão (que isso choca e é bom para manter as pessoas presas ao ecrã), mas não ocupou na mesma proporção os discursos. A imagem sem vida daquele homem foi usada (a expressão é mesmo esta) e, da minha perspetiva, com muito pouco respeito e muito pouca sensibilidade. Senti-me constrangida enquanto espectadora, pela falta de importância que foi dada à perda de uma vida.

Mas há mais: as imagens dos vídeos de telemóvel em que jovens agridem um outro e utilizam expressões tão violentas quanto os seus atos, repetidas e repetidas. "Ah, mas isto é para chocar e fazer ver a violência dos jovens entre eles". Não, não é! Da forma como o fazem, não é. É só uma maneira de relativizar todas as outras formas de violência, consideradas menos graves. Porque, lá está, se na televisão passam jovens a pontapear outros na cabeça e a “gozarem” o prato com uma violência extrema, se eu só insultar o colega não é nada de especial. Se eu só o rebaixar constantemente não me aproximo nem pouco mais ou menos daquilo que é possível fazer para magoar alguém. Bem, ou então, posso sempre aprimorar a minha maldade até níveis “televisivos”, porque o que tenho feito é pouco e há sempre maneiras de me tornar pior e sentir-me o maior.

Os jornalistas têm o poder de ajudar a mudar o mundo, de dar voz a quem não tem voz, de denunciar as injustiças, etc. Têm o poder e a capacidade de chocar quando é preciso e de, para isso, recorrer a imagens que funcionem como “murros no estômago”, que nos façam ver que há coisas a passar-se que não são humanamente aceitáveis. Banalizar a violência não me parece a forma mais inteligente de se fazerem ouvir.

17/Mai

Um banho de Fé

Poderia dedicar este texto à visita do Papa, à sua mensagem, à canonização, ao centenário das aparições, mas haverá gente com um conhecimento muito maior do que o meu sobre o assunto. Por isso, decidi debruçar-me sobre um dos meus temas preferidos, as pessoas. Só posso falar pelo que vi, naturalmente, e o retrato que gravei será sempre o dos meus olhos, que tendem sempre a ver-lhes o lado bom. E a verdade é que Fátima foi, para mim, no fim de semana passado, um retrato feliz, do lado certo da vida.

Na sexta-feira passei praticamente todo o dia no meio das pessoas. E o que vi foi a imagem do ser humano feliz, tolerante, paciente, solidário, empático, desarmado.
Um espaço aglomerado e pequeno é um espaço propício a confusões, desentendimentos e impaciências. Talvez tenham acontecido e eu não tenha dado por elas; o que é certo é que me encontrei em algumas situações de aperto, literal, e não ouvi uma palavra desagradável, uma provocação, um empurrão, entre peregrinos. Pelo contrário: em alturas em que não dava para darmos dois passos, quem queria passar esperou, pacientemente, em silêncio, para poder fazê-lo. Mais ainda: vi pessoas indicarem caminho a outras: «pode passar por ali, que tem uma entrada», ou um «venha, tem de vir mais depressa para passar, que estão prestes a fechar daquele lado».

Gestos de boa vontade e de bom coração enchem-me de orgulho das pessoas; e tive muito de que me orgulhar.
Porque além de pequenos gestos, vi pessoas de coração aberto, que se misturaram com desconhecidos e gozaram de momentos de partilha.

Não me vou esquecer dos cânticos entoados com uma alegria contagiante, das conversas encetadas com o vizinho do lado, só porque sim. E a memória também não me vai levar os sons que agora são tocados de cada vez que me lembro de Fátima. São sons de África, daqueles que não dão para enganar, não precisamos de olhar para as pessoas para saber que estão a dançar numa roda, com lenços na cabeça e de pés descalços. A música é cantada com um sorriso rasgado e é dançada até por quem não sabe cantar. Fui parada numa das ruas de Fátima por esta cena; uma alegria cantada sem cor, sem língua, sem desconfiança. A este grupo de peregrinos, juntou-se uma mão cheia de outros. E dançaram todos juntos, largos minutos a fio. Sorriam uns para os outros, imitavam-se, davam abraços.

No fim, perguntei a duas portuguesas se sabiam de onde eram e que língua falavam. «Não os conhecemos, não sabemos de onde são; sabemos que falam francês.» Sabiam que não tinham conseguido ficar indiferentes aquela expressão de fé e de amor. E que tinham dançado. Não foram precisas mais palavras. Afinal, quando o coração fala, a boca pode ficar fechada. Também é isto, a fé.