Opinião

02/Nov

Um Sínodo pela abertura da Igreja

O mundo católico, e não só, tinha os olhos postos em Roma este fim-de-semana. Terminava o Sínodo dos Bispos, a face mais mediática de um processo sinodal que apenas se concluirá com a palavra do Papa Francisco. O Papa decidiu dedicar cerca de dois anos da vida da Igreja à temática da Família, célula base e nuclear da sociedade, mas que a sociedade tinha decidido ignorar. A sociedade e a Igreja, que tinha passado, com os séculos, de um movimento de fervorosos fiéis que percorriam o mundo a anunciar a Boa Nova, a uma instituição aberta apenas aos que decidiam entrar e vir ter com ela.E esta é a primeira consequência visível deste processo sinodal: a Igreja abriu as suas portas e vai sair à procura de todas as ovelhas que se perderam. O Sínodo alertou, como tinha vindo o Papa a fazer, para a necessidade de acolher a todos, para a necessidade dos católicos, religiosos e leigos, abrirem as portas dos templos e saírem à procura das pessoas onde elas estão. Esta atitude missionária não é novidade na Igreja dos dias de hoje, mas estava limitada a uma minoria que compreendia esta necessidade e partia. Agora não há volta a dar: Francisco e os padres sinodais abriram as portas da Igreja e querem acolher todas as pessoas, principalmente aquelas que mais precisam do ombro amigo de Deus e que eram os que mais se afastavam: as famílias em situações irregulares, sofridas, que erravam e eram afastadas.

Para isto, o Sínodo pediu uma linguagem positiva, que não afaste as pessoas, mas as acolha e acompanhe. Todos têm lugar na Igreja, sem implicar que todos tenham ficado subitamente em estado de graça e sem pecado.Acolher não significa aceitar ou concordar com as más ações, e foram muitos os padres sinodais que o foram dizendo ao longo deste tempo. Significa sim que a Igreja tem de ter uma resposta clara para todas as situações, que integre e que não afaste, e que seja sensível às realidades de cada um.

O que nos leva à segunda consequência visível: os sacerdotes, religiosos e leigos precisam de formação. Precisam de aprender aacolher, a discernir as diferentes situações que lhes são apresentadas todos os dias, e a saber quais as respostas que a Igreja tem para propor a cada pessoa.Não há respostas gerais, e o Sínodo foi claro nisso. Cada pessoa é um caso, e tem de ser tratada como tal, como indivíduo que é. A face mais visível desta questão é que os leigos que se aproximam da Igreja, ao serem afastados, podem hoje olhar para quem afasta e bater o pé: a Igreja é de todos, inclusive dos que erram, e ninguém pode ser afastado do regaço de Deus.

O Sínodo não esqueceu a enorme quantidade de divorciados recasados que existem no mundo, e que precisam de uma resposta. Muitos poderão pensar que a resposta foi dada nos pontos mais polémicos do relatório final, apontando um caminho de discernimento que pode levar, em alguns casos, ao acesso pleno aos sacramentos, mas isso é apenas parte da verdade. Como tem feito nestes dois mil anos, a Igreja não funciona ao ritmo das pessoas,funciona com uma visão mais ampla e profética, e foi nesse sentido que pensou em tudo. Antes de mais, com a simplificação dos processos de nulidade. Processos mais céleres para as situações onde, claramente, o vínculo nunca existiu, vai permitir que a grande maioria das situações fiquem resolvidas, como têm vindo a afirmar bispos e sacerdotes durante este tempo sinodal, como disse D. Manuel Clemente à Família Cristã, antes da sua partida para Roma. Com processos mais rápidos e tendencialmente gratuitos, muitas das pessoas que hoje sofrem por não poderem aceder aos sacramentos poderão fazê-lo, se perceberem que, como acontecerá com a maioria, esse vínculo não foi válido e podem avançar para legitimar esta novaunião.

Mas porque isto de declarar nulidade não pode ser o pão nosso de cada dia, a Igreja deu outro passo importante com a preparação para o matrimónio. Antes do Sínodo, D. Joseph Coutts, do Paquistão, dizia, em entrevista à Família Cristã, que não era justo colocar um peso tão grande em cima de um casal que tinha acedido ao sacramento do matrimónio com tanta facilidade, sem qualquer preparação. E os padres sinodais, apesar de terem hesitado mexer nesse tema no sínodo anterior, neste foram claros ao afirmar que é necessária uma preparação para o matrimónio mais intensa, prolongada no tempo, que envolva a comunidade e promova a integração dos noivos nessa mesma comunidade, cultivando uma relação que se vai manter depois do matrimónio, com um acompanhamento mais próximo desses casais. Com noivos conscientes do sacramento, devidamente integrados na comunidade paroquial que os acolhe, e devidamente acompanhados nas alegriase nas tristezas, o risco de rutura diminui consideravelmente, se é que não desaparece.

O risco é que desapareçam também os casais interessados no matrimónio religioso, mas não acho que seja um risco real. Mesmo que diminuam no início, a proposta de felicidade que a Igreja tem para os casais cativa e atrai, e o que todos os casais procuram é a felicidade conjugal. Percebendo que a encontram na proposta da Igreja, voltarão como voltou o filho pródigo depois de tentar um estilo de vida afastado do Pai que não lhe trouxe felicidade.

Depois de tudo isto, resistirão algumas situações de divorciados que entraram em rutura, cujo vínculo foi válido, e também a esses é preciso dar resposta, e é apenas aí que surgem os tais pontos polémicos, que mais não fazem que ir ao encontro das pessoas e das suas vidas. O resultado será diferente para cada um, e pode acontecer que, em alguns casos, se chegue à consciência de que é possível chegar a aceder aos sacramentos da comunhão e da confissão. Ou não. Mas mesmo que não seja possível isso, será possível uma outra proposta que enquadre essa pessoa navida da Igreja e possibilite a participação tão plena quanto possível na vida da Igreja. Se tiver este acompanhamento, mesmo sem comunhão ou confissão, a pessoa estará enquadrada na Igreja e será feliz, porque Deus tem uma resposta para ela.

02/Fev

Um homem católico tem de ser um presidente católico?

Marcelo Rebelo de Sousa venceu"sem espinhas" as eleições presidenciais do passado domingo. Não foi uma surpresa, nem sequer o facto de ter sido à primeira volta. Apesar dos muitos apelos à necessidade de uma segunda volta, a verdade é que os candidatos à esquerda eram demasiados e espartilharam os votos, deixando o caminho aberto para uma vitória folgada e sem grande contestação do professor Marcelo, apenas ultrapassado pela taxa de abstenção, que continua a níveis preocupantes.O professor/político/comentador fez uma campanha discreta, sem grandes apontamentos mediáticos, nem sequer o apoio declarado dos responsáveis partidários de direita, campo natural do candidato, que assim andou a tentar, com notório sucesso, ganhar pontos também à esquerda. Uma estratégia que, consciente ou não, começou a ser traçada quando iniciou o seu percurso de comentador televisivo há anos, onde criou uma imagem de imparcialidade que o ajudou a chegar a eleitores de todos os espectros políticos.

Muito vincada no novo Presidente da República é também a sua fé. Já admitiu que rezava o terço todos os dias, e eram habituais as suas presenças em eventos de âmbito religioso, maioritariamente católico, onde nunca se coibiu de falar da sua fé, tendo inclusive participado, já como candidato a Belém, nas "Conversas" sobre Deus com Maria João Avillez na Capela do Rato, em Lisboa. Terá sido essa influência que o levou até a citar o Papa Francisco no seu discurso de vitória.

Por via desta religiosidade assumida, foram notórias algumas críticas mais recentes ao comportamento do candidato no que toca a assuntos polémicos para a Igreja, como é o caso da eutanásia e da adoção por casais do mesmo sexo, diploma que, reconheceu em entrevista, promulgaria sem reservas. Esta disponibilidade para adotar uma agenda mais de esquerda causou espanto e consternação na ala católica do país, e será curioso perceber se o presidente Marcelo irá ter o mesmo comportamento e as mesmas opiniões do candidato Marcelo, que parecem ir contra as supostas opiniões do católico Marcelo.

A fé não é algo privado, ou que se utilize apenas no recanto da igreja. A fé influencia todos os aspetos da vida de um católico, e deveria sobrepor-se a todos os outros interesses, ou influenciá-los, e isso implica que, em determinados assuntos, haja uma posição clara e inequívoca, que certamente chocará com a população que não é católica. Pode dizer-se que o presidente da República tem como função garantir o cumprimento da Constituição, mas o acolhimento de propostas que colocam em causa o direito à vida atenta contra direitos constitucionais, segundo o ponto de vista de parte da população.

Será curioso perceber que relação manterá o presidente com a fé que sempre disse professar, e até que ponto os seus valores católicos foram colocados em causa apenas para efeitos de campanha...

19/Set

O Papa vem aí. Como preparar a sua visita?

Foi a notícia mais fantástica, associada ao centenário das aparições, mesmo se ainda não for oficial da parte do Vaticano: o Papa Francisco vem a Portugal. Desde que se soube da possibilidade quase certa, começou em marcha todo um processo de preparação para a vida do Papa ao nosso país. Já não há alojamento em Fátima, as lojas devem estar a reforçar stocks para aquela altura do ano, e muitos dos devotos de Fátima que não estavam a fazer de contar de ir ao santuário no 13 de maio passaram a querer estar onde está o Papa.

São várias as formas de antecipar e preparar a vinda do Papa ao nosso país. Que presentes é que ele gostará? Qual o carro onde se irá deslocar? Vai querer visitar alguma instituição?

Nada sabemos, mas esta semana, em entrevista à Família Cristã, o cardeal Saraiva Martins, enviado do Papa ao congresso mariológico sobre o centenário das aparições, explicou o que Francisco espera encontrar no nosso país quando cá chegar, em maio do próximo ano.

E o que o Papa espera é tão simples e lógico, como difícil e utópico. «Pessoas que realmente estejam convencidas, que acreditem na Mensagem de Fátima, na sua urgência, e a manifestem». Tão simples, não é? E, no entanto, tão difícil.
Façamos um exercício simples, respondendo a estas questões: sabe quem é Nossa Senhora de Fátima? Sabe quantos são os segredos? Conhece o conteúdo? Sabe o que disse Nossa Senhora aos pastorinhos?

Se conseguir, honestamente, responder a estas questões, está preparado para receber o Papa. Mas como a esmagadora maioria dos católicos não está, este deverá ser o grande trabalho daqui até maio. O Papa pede que se estude e aprofunde a mensagem de Fátima, para que depois os cristãos possam sair à rua, falar dela e mostrar aos outros como a vivem na sua vida.
Sim, porque diz-nos também o Cardeal Saraiva Martins, «viver não é só falar, mas para celebrar dignamente, o único meio é aprofundar o que diz Nossa Senhora é ver se, na minha vida concreta do dia-a-dia, tenho em conta ou não o que Nossa Senhora disse».

Esta é sempre a parte mais difícil de ser cristão: transformar as nossas palavras bonitas em ações concretas, que dão trabalho, desinstalam, obrigam a abdicar de luxos e confortos.

Mais do que preparar grandes espetáculos para receber Francisco, isto é o que nos pede o Papa. Quantos das centenas de milhares de pessoas que irão encher o Santuário de Fátima estarão dispostos a fazê-lo?