Opinião

O que é que os refugiados têm a a ver com o presépio?

06 de Dezembro de 2016

«Não te esqueças de odiar os refugiados ao montares o teu presépio, que faz memória de um casal do Médio Oriente que desesperadamente procura abrigo para eles e para o filho que há de nascer».

A frase irónica tem circulado em vários memes (piadas que se tornam virais na internet) com uma imagem do presépio e visa alertar para a incoerência daqueles que se dizem seguidores de Jesus, mas renegam o acolhimento de refugiados, pessoas que perderam tudo na fuga desesperada por um futuro. Não por um futuro melhor, mas por um futuro, ponto.

Na passada semana, ouvíamos os relatos aterradores que a Ir. Guadalupe fez, na sua passagem por Portugal a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. «Ser cristão é sinal de martírio», dizia na entrevista que deu à Família Cristã. Os cristãos estão a ser massacrados na Síria, e poucos restam na cidade. Parte fugiu, mas grande parte foi morta, dizimada, e de 600 mil cristãos restam hoje 20 a 25 mil.

Não nos é possível a nós, europeus, conceber tais cenários, porque nenhum de nós passou pelas guerras que já assolaram o nosso continente. Não imaginamos o que é fugir e ter de deixar um filho para trás, ou ver toda a nossa vida e todos os nossos bens serem levados pela corrente do mar quando estamos apertados num barco no meio do Mar Mediterrânico com mais 60 refugiados e o barco está a meter água e não vemos escapatória. Tudo histórias que poderão ler na nossa revista de dezembro, que estará em breve à venda, e que conta a história de três refugiadas que conseguiram chegar a Portugal e estão a refazer a sua vida, dentro do possível.

Pensar no Natal sem pensar em todos os que sofrem por não conseguirem festejar esse mesmo Natal é impossível. No Médio Oriente, os cristãos vão ter muita dificuldade em celebrar o seu Natal. Anima-os a fé, o grande testemunho que nos dão, como dizia o arcebispo de Erbil, D. Bashar Warda, também de passagem por Portugal.

É tempo de olharmos para a realidade dos refugiados e dizermos “Basta!” Não podemos continuar a compactuar com esta situação. A guerra acaba se cortarem os financiamentos aos grupos terroristas. Sim, que fique claro para todos que há países, ditos desenvolvidos, que fazem negócios com os terroristas, que lhes dão dinheiro, em troca de petróleo, para que eles se financiem, consigam mais armas e consigam pagar aos seus mercenários, e alguns até estarão envolvidos nas forças militares que combatem esses mesmos terroristas.

Bom, poderão dizer alguns, mas isto é decidido por políticos. O povo, que somos nós, não temos voto nesta matéria. É verdade, até certo ponto, pois podemos e devemos exigir dos nossos políticos essa responsabilidade, mas há mais coisas que podemos fazer. Antes de mais, rezar. Parece pouco, bem sei, mas por alguma razão o Papa Francisco pede sempre que rezem por ele. Nunca menosprezem o valor da oração, muito menos de uma oração partilhada por crentes em todo o mundo, porque ela faz efeito.

Depois, porque não direcionar o valor do dinheiro dos nossos presentes neste Natal (de alguns, ou de todos), para apoiar as instituições que, no terreno, se dedicam a apoiar os refugiados? Precisam mais eles de dinheiro para comida e cobertores que nós precisamos para livros, roupa ou outros gadgets, e este gesto permitirá a possibilidade de podermos falar disto a outras pessoas (temos de justificar para onde foi o dinheiro dos presentes), miúdos e graúdos, gerando discussão, debate, mas acima de tudo consciencialização para este problema.

É preciso acabar com a guerra, e tão depressa quanto possível. Mas tal não basta. É preciso que sejamos generosos como o taberneiro que recebeu Maria e José no seu estábulo, ou como os pastores e os Reis Magos que foram conhecer o Menino e lhes levaram presentes a Ele.

Nesta semana em que começa o Advento, o tempo de preparação para o Natal, pensemos nisto. Há quem passe o Natal à deriva no oceano, a fugir do inferno e à procura do Céu. E nós, que montamos o nosso presépio devotamente todos os anos, o que temos a dizer a estas pessoas?