Opinião

Quem é São Paulo para a Família Paulista?

04 de Junho de 2014

O Pe. Alberione ensina-nos como devemos considerar São Paulo. É preciso aprender quer com a sua vida quer com o seu ensinamento: «Conhecer melhor São Paulo. Escreveu-se muito sobre a sua personalidade humana e espiritual; mas ainda resta muito que dizer.
Na abertura do Ano dedicado a São Paulo, em janeiro de 1957, e apontando os objectivos desse ano, o Pe. Alberione escreveu:
«Conhece teu pai»: a sua santa vida, o seu apostolado, a sua doutrina, o seu poder junto de Deus. Conhecer o Apóstolo de Cristo, o Mestre das gentes, o Ministro da Igreja, o Vaso de eleição, o Pregador do Evangelho, o Mártir de Cristo. Conhecer quanto ele entra na Dogmática, na Moral, na Liturgia, na organização da Igreja.
Imitemos melhor as suas virtudes. Ele foi um autêntico Homem de Deus: um homem enriquecido, de maneira excepcional, de graças; um homem a quem de modo especial se confiaram as coisas de Deus; um homem de modo especial agradecido a Deus; um homem que pôde dizer: «a sua graça em mim não foi vã». Ele é um cantor de Deus, propositor das leis de Deus, promotor do culto a Deus, aquele que foi segregado por Deus, o prisioneiro de Cristo, aquele que vive em Cristo.
Há três razões para rezar a São Paulo: o poder dos Santos junto de Deus está em proporção ao trabalho feito por Deus na terra. Além disso, ele é pai da família; e um pai pensa nos filhos. Podemos alcançar a sua benevolência com as nossas orações.
Amar o Apóstolo. Quando se diz simplesmente o Apóstolo, referimo-nos a São Paulo, de tal modo a sua figura se eleva acima da vida normal: «trabalhei mais abundantemente».
 
Para conhecer melhor São Paulo é preciso ainda descobrir que:
 
1 Ele é o mestre por excelência, já que, como Cristo, «começou a fazer e depois a ensinar». Com toda a justiça o consideramos «mestre e doutor de todas as gentes», posto que o seu apostolado se estendeu a todos os povos.
A característica do seu ensinamento é a universalidade (AD 64); ele é o dominador da história. Vejamos até onde chegou o Apóstolo e os anseios que levava em seu coração:
«No ano 58, quando São Paulo escreveu a Carta aos Romanos, a Igreja de Roma aparece bem organizada, e já os cristãos vindos do paganismo ultrapassavam o número dos que vinham do Judaismo: era tão numerosa, que no ano 64 deu uma “multidão grandíssima” de mártires, e era também muito instruída na doutrina cristã, e famosa em todo o mundo pelas suas virtudes.
São Paulo desejara muitas vezes visitá-la, mas ainda não tinha podido.
No termo da sua terceira viagem missionária, São Paulo, após ter evangelizado o Oriente, desejava conquistar o Ocidente para Cristo; assim se deparou para ele a ocasião tão desejada de visitrar a Igreja de Roma. Por isso, escreve aos Romanos, anunciando que depois de ter estado em Jerusalém para levar as ofertas aos cristãos, na viagem que estava para fazer à Espanha, pararia em Roma. Eis a causa ocasional da carta. Mas a carta aos Romanos, mais que uma carta, é um tratado, e tem outros objectivos muito superiores a um simples anúncio de visita.
Motivos principais foram: a importância de Roma para a conversão dos Gentios, dos quais Paulo era o Apóstolo; e a necessidade que o centro de irradiação do Cristianismo fosse bem instruído na fé.
Na carta, São Paulo justifica o seu apostolado entre os Gentios, e insiste nos principais pontos da sua pregação, especialmente na tese principal e mais combatida pelos Judaizantes, mas de importância capital para o futuro do Cristianismo, que consiste nisto: a graça da justificação é merecida por Cristo para todos os homens, tanto Judeus como Pagãos, sem ser fundamentada nos méritos precedentes; a justificação não depende  da observância da lei de Moisés, mas da fé em Cristo, avivada pelas boas obras», escreveu o P. Tintori, in Introdução à Carta aos Romanas, numa edição de Bíblia por ele comentada. (cf Rm 6,19-23; 1Co 4,1-17; 2Tm 1,13).
 
2 Ele é o apóstolo: O Pe. Alberione viu em Paulo o verdadeiro Apóstolo; por conseguinte, todo o apóstolo e todo o apostolado podem aprender dele. Com este espírito e anseio no coração, o Pe. Alberione escreveu na sua autobiografia:
«São Paulo, o santo da universalidade. A admiração e a devoção começaram especialmente com o estudo e a meditação da carta aos Romanos. Desde então a personalidade, a santidade, a oração, a intimidade com Jesus, a sua obra na dogmática e na moral, a marca deixada na organização da Igreja, seu zelo por todos os povos, foram argumentos de meditação. Pareceu-lhe verdadeiramente o Apóstolo: por conseguinte, todo o apóstolo e todo o apostolado poderiam haurir dele. […]. A Família Paulista tem grande abertura para todo o mundo em todo o apostolado: estudos, apostolado, piedade, acção, edições. As edições para todas as categorias de pessoas; todas as questões e os factos julgados à luz do Evangelho; as aspirações: as do Coração de Jesus na Missa; no único apostolado: “fazer conhecer Jesus Cristo”, iluminar e sustentar todo o apostolado e toda a obra de bem; trazer no coração todos os povos; fazer sentir a presença da Igreja em todos os problemas; espírito de compreensão e adaptação a todas as necessidades públicas e particulares; todo o culto, o direito, a união da justiça com a caridade» (AD 64-65). cf. 1Co 3,5-12; 4,1-18; 2Co 6,3-12; 11,1ss)
 
3 São Paulo é o homem orante em comunhão íntima com Cristo. Esta contínua comunhão com a “fonte” levou Paulo a compreender Cristo e a sentir como uma urgência pessoal a sua divina vontade de salvação. Deste modo, «ele não reconheceu ao apostolado mais eficácia que a da oração»; por um lado, concentrava toda a sua pessoa em Cristo, até ao ponto de fazer dele «o primeiro místico», o «doutor da vida mística em Cristo»; por outro lado, permitia-lhe conhecer a fundo a mente de Cristo e ser seu fiel intérprete no exercício do apostolado. 
(cf. Rm 1,8-10; 2Co 1,3-7; Ef 1,3-20; 3,14-21; Flp 1,3-9).
 
4 São Paulo é o intérprete de Cristo. Esta é a expressão corrente do Pe. Alberione, quando quer definir o valor apostólico de São Paulo: «Intérprete de Cristo». «O mais afortunado – o maior -, o mais completo intérprete e imitador de Cristo». «Tudo é seu – dizia o Fundador, confiando a Congregação à protecção do Apóstolo – Tudo é dele, o mais completo intérprete do Mestre Divino, que aplicou o Evangelho às nações e chamou as nações a Cristo).
(cf. Rm 8; Ga 2,19-21; Flp 2,5-11; AD 159-160; DF 168-170; CISP 75=; 1081; 1172).
 
5 São Paulo é o missionário. Para poder realizar os desígnios de Cristo, Paulo chega a ser o missionário por antonomásia. O Pe. Alberione fica fascinado por ele, e, tendo em conta certas perspectivas do apostolado moderno, (a difusão, a necessidade de ir ao encontro dos homens aonde não chega a presença do sacerdote), repete frequentemente esta palavra: São Paulo é o grande caminheiro de Cristo.
(cf. 2Co 11,16-33; 1Ts 2,1-12; 2Tm 2,1-13; 4,6-8; AD 117).
 
6 São Paulo é o arquitecto da Igreja. Teve uma acentuada capacidade  de organização. O Pe. Alberione define-o como «arquitecto sábio».  Fundou numerosas e fervorosas comunidades na Ásia Menor e na Macedónia; e nas outras já fundadas, a sua presença foi sempre significativa.
(cf. 1 Co 3,9-12; Rm 15,16-20; Ef 3,17; Col 1,23).
 
7 São Paulo é, sobretudo, o homem do equilíbrio. O Pe. Alberione vê em São Paulo a síntese perfeita: a integração na admirável unidade dos elementos, aparentemente opostos, que fazem do homem a completa fusão das duas formas de vida (contemplativa e activa), onde nasce o autêntico apóstolo.  (cf Flp 4,10-13; Ga 2,20; CISP 1141-1142).
 
E nós, como resolvemos, na nossa vida, a necessidade de estarmos diante de Deus e envolvidos ao mesmo tempo na missão de levar às pessoas a mensagem cristã e a Palavra de Deus? A pergunta sugere-nos uma viagem pelo evangelho e uma atenção ao exemplo dos santos que nos ajudam, com o seu exemplo, a fazer uma síntese das nossas obrigações na nossa vida de cristãos. Analisemos então dois princípios de vida cristã:
PRINCÍPIOS DE VIDA CRISTÃ
 
O cristão bem encaminhado na sequela de Jesus Cristo assume na vida novas maneiras de ser e de se comportar, quanto ao agir e ao rezar. Vejamos: Proferida a parábola do Bom Samaritano, Jesus entra na casa de Marta e de Maria. Marta entretém-se nos trabalhos de casa; Maria senta-se aos pés de Jesus e fica ali a ouvi-l'O. Quando Marta protesta contra a atitude da irmã, Jesus adverte-a: «Marta, Marta, andas inquieta e preocupada com muitas coisas, quando uma só é necessária. Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada» (Lc 10, 41-42). Marta é símbolo do cristão  arredado, pelo trabalho extenuante, da fonte de toda a acção: a oração e a escuta da palavra do Senhor. Atitudes como a de Marta afastam-nos de Deus e não nos permitem posturas de Discípulos atentos ao Seu mistério. Ao passo que Maria simboliza todo aquele que medita a Palavra e a traduz em amor e serviço aos pobres, como fez o Bom Samaritano.
O comportamento de Maria não é o de um místico que se refugia em Deus e desaparece do cenário humano, ou seja, da comunidade e da vida com os seus problemas; mas é uma atitude de crente que ouve a palavra de Deus e a põe em prática nas situações concretas do dia a dia. São inseparáveis e essenciais na vida cristã as atitudes de ouvir e passar à acção.  A não ser assim, o cristão pode viver em dicotomia: a oração não é fermento de vida activa nem a acção brota da oração. A vida decorre assim por dois caminhos paralelos que nunca se complementam nem se confrontam na vida do crente. «A oração que não leva à acção concreta em benefício do irmão pobre, doente, carenciado de ajuda, o irmão em dificuldades, é uma oração estéril e incompleta», ensina o Papa Francisco (Angelus, 21-7-2013).
Neste sentido, o Beato Tiago Alberione (falecido a 26 de Novembro de 1971) insiste que a vida dos religiosos (Paulistas) é como um carro que se movimenta sobre quatro rodas: duas delas são a espiritualidade e o apostolado (a missão). Estas são imprescindíveis para que o carro não se precipite nalgum abismo: sem a espiritualidade, o estar aos pés de Jesus para pedir luz e misericórdia, o apostolado não vale nada. É um agir estressante e estéril, que não dá frutos. O próprio Jesus adverte que “sem Ele não podemos fazer nada”. E uma espiritualidade, que não suscite ardor, como o de S. Paulo, pela missão, é inconsequente, carente porventura de algum acerto.
A acção cristã (amor ao próximo) fundamenta-se na aceitação do mistério do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo. A luz, a inspiração e a força vêm todas do sacrário. S. Bento expressa esta realidade com a máxima Ora et Labora. Na proximidade e amor a Jesus descobre-se a veracidade das Suas palavras: «O meu jugo é suave e o meu peso é leve». “Tudo o que é duro no preceito, faz o amor com que se torne suave”, sustenta S.to Agostinho.
Segundo o método de vida espiritual do Beato Tiago Alberione, só depois de ter recebido a revelação de toda a força do amor de Deus, é que a vida do cristão se pode tornar fonte de amor para os outros. Sendo assim, afigura-se pouco profunda e autêntica a espiritualidade dos dois clérigos, que se cruzam, indiferentes, com o homem semi-morto na descida de Jerusalém para Jericó (cf. Lc 10, 30-35). Ao passo que o Samaritano, ao carregar o desditado para um posto de socorro, revela ter um coração moldado à imagem do de Jesus Cristo. Quiçás tivesse estado a rezar, antes de topar com o homem caído nas mãos de salteadores.
Conclui-se que é necessário alindar os caminhos da vida com oração e obras de misericórdia, para que a noite (a morte), como um ladrão, não nos surpreenda inactivos e de mãos vazias.