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23/Fev

- «Os milagres são um “lugar” através do qual Deus age e Se revela»

Renato Filipe da Silva Oliveira, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Braga, é o vencedor do Prémio PAULUS de Edição 2015. A dissertação Os milagres como Evangelho – Sentido teológico dos milagres de Jesus, orientada pelo Professor João Duque, foi a escolhida pelo júri.

Foi o vencedor do Prémio PAULUS de Edição 2015 com Os milagres como Evangelho. Que trabalho é este?
Este é um trabalho que, basicamente, procura apresentar a pertinência da noção bíblico-cristã de milagre. Divide-se em duas partes: numa primeira, é feita uma apresentação dos principais argumentos utilizados pela crítica racionalista dos sécs. xvii e xviii na negação dos milagres. Numa segunda parte, é apresentada a forma como a teologia bíblica cristã entende a noção de “milagre”, a partir dos relatos de milagres de Jesus. A primeira parte torna-se necessária porque, no fundo, foi a crítica racionalista que obrigou a teologia cristã a situar-se e a questionar-se.

Na nossa sociedade ainda faz sentido falar de milagres?
Perante o avanço do conhecimento científico, fomos assistindo, progressivamente, a uma rejeição do conceito de “interferência divina” nos processos naturais e à crença de que os milagres podem ser explicados cientificamente ou vistos como meras criações literárias não históricas. Neste contexto, pode parecer que não faz sentido, na sociedade de hoje, falar em milagres.
Creio, contudo, que por detrás destas ideias está uma compreensão deturpada daquilo que designamos como milagre. Se considerarmos os milagres, na sua conceção bíblica, eu não diria apenas que faz sentido falar em milagres, mas acrescentaria que eles desempenham um papel que não pode ser marginalizado na estruturação da nossa fé.

Qual é o sentido bíblico-cristão dos milagres?
Para percebermos minimamente o sentido bíblico-cristão de “milagre” devemos deter-nos, antes de mais, sobre os aspetos etimológicos. Nos textos evangélicos, na referência aos milagres de Jesus, fala-se em “atos de poder”, no caso dos evangelhos sinópticos, e em “sinais”, no caso do Evangelho de João. Por conseguinte, na sua aceção bíblica, o milagre não é propriamente uma violação incómoda das leis da natureza. Os milagres são antes um “lugar” através do qual Deus age e Se revela. Por isso, não têm importância em si mesmos, mas somente na medida em que remetem para algo que está para além da pura imanência e que, em última instância, é o próprio Deus.

E a visão atual da conceção dos milagres difere muito do sentido bíblico-cristão?
A conceção que, vulgarmente, se tem de milagre não tem, de facto, total correspondência com a conceção bíblico-cristã. Por vezes, há quem veja os milagres como sinais de um Deus “mágico” que vai intervindo aqui e ali para corrigir a sua obra criadora. Ora, os milagres, na sua aceção bíblica, não são “remendos” de Deus, mas sinais de um Amor incondicional, respeitador da autonomia do mundo e do ser humano.

Quando foi anunciado como vencedor, referiu que «no âmbito da Teologia, um trabalho académico tem de ser pastoral, tem de chegar às comunidades cristãs». Esta é uma preocupação presente na dissertação?
Ainda que de forma indireta, este trabalho procura ter um alcance pastoral, como penso ser desejável em qualquer trabalho desta área. Em Teologia, o trabalho académico tem de procurar, direta ou indiretamente, marcar a vida das comunidades cristãs, produzindo frutos concretos na forma como os cristãos pensam e vivem a sua fé.

Qual a importância de um prémio como este para o nosso país?
Creio que este prémio é muito importante na medida em que permite, através de algo concreto, uma aproximação entre o estudo da Teologia e a vivência da fé. Esta é uma forma privilegiada de fazer chegar o trabalho teológico a todos os cristãos. De facto, a Teologia não é património reservado a alguns, mas algo a ser tornado acessível a todos os crentes para que possam verdadeiramente compreender as razões da sua fé.