Opinião

O mundo do politicamente correto

14 de Abril de 2015

O Papa Francisco voltou a abalar os pilares do politicamente correto ao classificar como «genocídio» o extermínio de cristãos arménios há 100 anos atrás pelo império Otomano, hoje a Turquia. Não foi a primeira vez que um Papa se referiu nestes termos ao que tinha sucedido, já que João Paulo II havia usado o mesmo termo numa declaração conjunta com o Patriarca dos Arménios Karekin II em setembro de 2001, durante uma viagem apostólica, mas as palavras de Francisco adquiriram uma importância mediática tal que o núncio apostólico na Turquia foi chamado a explicar-se perante o governo turco.

Vivemos num tempo do politicamente correto. Não criticamos quem receamos que nos possa retaliar ou colocar em causa, porque receamos as consequências do que possa ser dito, e ficamos espantados e "indignados" quando alguém o faz. Por causa disso, 800 mil crianças foram já obrigadas a fugir das suas terras na Nigéria para escaparem às garras do Boko Haram, segundo dados da UNICEF, e muitas são as que estão prisioneiras, incluindo aquelas 200 que há uns meses geraram indignação e hashtags, mas pouco mais, devido ao tal receio de "incomodar".

Também é por causa disso que milhões de pessoas vivem refugiadas no Líbano ou deslocadas no Iraque, a fugirem de um grupo de loucos que se autoproclamam como líderes de um estado que não existe. Quem faz negócios com eles e compra barris de petróleo a 3 dólares, como dizia à FAMÍLIA CRISTÃ Catarina Martins, diretora da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, assobia para o lado e ignora a catástrofe humanitária que por ali se passa, aliada à destruição de património da humanidade que se sucede, semana após semana, numa brutalidade indescritível, e continua a fornecer a estes loucos os meios que lhes permitem continuar a torturar, violar e assassinar minorias étnicas e religiosas, em nome de qualquer coisa que não se entende o que é, porque religião não será certamente.

Tudo isto poderia acabar, se deixássemos de viver num mundo do politicamente correto. Os refugiados, as crianças, os idosos, não precisam de palavras vãs e hashtags. Precisam de ações concretas, precisam que a condenação das palavras (pouca, porque mesmo para falar há receio de uma eventual retaliação estilo Charlie Hebdo) passe para os atos e se acabe com esta barbárie.

Gostamos de nos gabar e de dizer que vivemos em liberdade, conquistada a ferros nas últimas décadas aqui na Europa. Mas a verdade é que vivemos cada vez mais reféns de fundamentalistas que atropelam a liberdade que conquistámos com tiros de metralhadora vendida pelos países que, agora, receiam pronunciar-se sobre esses mesmos fundamentalistas, ou por países que lucram duplamente com o envio de armas para combater as armas que eles próprios venderam para lá uns tempos antes.

Mais uma vez é o Papa quem dá o exemplo e acaba com o politicamente correto. Veremos se, também aqui, algum dos líderes dos países que alimentam estes conflitos tem a coragem de seguir o seu exemplo.