Opinião

O efeito de contágio das desgraças mediáticas

24 de Agosto de 2017

O Efeito Werther, assim chamado em “honra” do jovem Werther, personagem do romance de 1774 «Os sofrimentos do jovem Werther», de Johann Goethe, foi descoberto quando, após a publicação deste romance que falava de um jovem desiludido com a vida que decide cometer suicídio, surgiu um pico de suicídios de homens jovens por toda a Europa. Por causa disto, investigadores sugeriram que os jornais não deviam reportar casos de suicídios, para evitar que o efeito de contágio levasse a um aumento dessas situações.

A questão tornou-se de tal forma aceite que, de facto, poucos são os suicídios que são noticiados, mesmo em órgãos mais sensacionalistas que procuram o escândalo e se preocupam mais com as audiências que propriamente com os efeitos sociais das suas notícias.

O incidente desta manhã em Marselha, em que um homem com problemas psiquiátricos embateu com dois carros em duas paragens de autocarros, matando uma mulher e ferindo outra pessoa, apenas três dias depois do ataque terrorista de Barcelona, veio reforçar ainda mais a ideia de que é preciso parar com a cobertura excessiva de determinados acontecimentos, sob pena de mais matérias estarem sujeitas a efeitos de contágio graves.

Os longos diretos das televisões, as publicações de fotos e vídeos nas redes sociais, o explorar dos sentimentos de quem sofre, que é proibido pelo próprio código deontológico dos jornalistas, são tudo combustível que alimenta o ego e a mente de muitos que, por predisposição, desejam fazer parte deste circo mediático em que muitas destas situações se tornam.
Com os incêndios, sucede o mesmo, e já muitos foram os pirómanos que atearam fogos por efeito de contágio, depois de longos dias de diretos e entrevistas a pessoas que sofrem por ver as suas casas ameaçadas e que nada acrescentam de informação nova aos jornalistas ou ao seu público.

O problema é que, nestas situações, as questões são muito mais delicadas que na questão dos suicídios. Aqui, há também um imperativo de noticiar, de avisar as pessoas, de as informar sobre o andamento dos fogos, ou sobre a existência de atos terroristas. Não são simplesmente notícias que se possam ignorar, e não noticiar. São, sim, momentos em que tem de emergir em todos os jornalistas e diretores de informação o sentido do outro, da decência, da compreensão e da compaixão. Não podemos ceder ao medo, no caso dos ataques terroristas, nem podemos fingir que os incêndios não acontecem, mas podemos noticiar tudo sem provocar um efeito de contágio que vai continuar a ceifar vidas inocentes, sem um fim à vista.

O Papa Francisco falava, na sua mensagem do Dia Mundial das Comunicações deste ano, na necessidade dos jornalistas procurarem a «boa notícia», o noticiar as coisas de uma forma positiva, mesmo que se esteja a falar de uma desgraça ou calamidade. Isto significa que os jornalistas têm maior responsabilidade no que fazem, mas que também as entidades reguladoras e, em última análise, o público, têm uma palavra a dizer. Sim, porque não podemos simplesmente criticar os longos diretos, e depois ter a televisão ligada durante esses diretos, ou criticar os vídeos em que se explora a fragilidade humana que sofre ao ver os seus bens a arder, e depois partilhar esses vídeos nas nossas redes sociais.

A responsabilidade é de todos.