Opinião

O crime de abandonar os idosos

23 de Fevereiro de 2016

Foi notícia próxima do Natal: a discussão na Assembleia da República sobre o abandono dos idosos. Abandono classificado de crime. Possivelmente a Assembleia deveria ser um ponto de chegada e não de partida deste problema. Já todos nos apercebemos que o drama se agrava de ano para ano, não apenas por culpa das famílias, mas pela orgânica social e laboral que conduz fatalmente a esta fórmula: a reforma, o envelhecimento, a casa vazia, a disseminação da família, o abandono da essência da aldeia – proximidade, vizinhança, portas abertas, informalidade de contactos –, a desconfiança nos estranhos, a progressiva insegurança, o medo dos assaltos, sobretudo desse inimigo oculto que se chama solidão.

Terminou o grande combate: a aquisição da casa – afetuosamente pensada, ampla, para reunir toda a família com frequência, e muitos amigos, com lugar para todos: quartos, salas, cozinhas, espaços de convívio, jogos, lazeres para todas as idades. E certamente tudo aconteceu e múltiplos foram os momentos felizes. Mas esqueceu-se a corrosão do tempo, a mudança. E tudo se passou com uma rapidez surpreendente. Restaram os pais – dois inquilinos que olhavam para os recantos como escombros de festa e afeto. Todos partiram para as suas vidas. Os filhos e netos voltam de vez em quando para visita breve mas, ou não se falam alguns, ou falam com os olhos e os dedos nos smarts, visitando um mundo que os mais velhos desconhecem, com a comunicação a milhas e a vida embrulhada em problemas, também eles sufocados, sem comunicação e aparentemente sem saída. Até que, dos dois que restavam, um partiu. No início, os filhos iam rodando, ou as visitas, ou os convites para reencontro familiar nas suas próprias casas a espaços cada vez mais alargados. E nos intervalos dos encontros, breves, mais duro se tornou o tempo da solidão, da incomunicação, para não falar de carências do fundamental, como higiene, alimentação, assistência a situações de degradação de saúde. No meio de tudo surgiu um como que cansaço da vida, para que muitos acham que já nada cá estão a fazer. Recordo uma entrevista de uma senhora com mais de cem anos que desabafava: «A morte esqueceu-se de mim.»

Parece que para cada problema destes que afloramos temos uma solução na mão: o regresso à família patriarcal onde crianças, jovens e adultos convivem e se enriquecem mutuamente. Mas os tempos não voltam atrás. Só um espírito novo de família, uma atenção permanente para com os membros mais frágeis, uma conceção de trabalho que não ponha as pessoas umas contra as outras, uma perspetiva cristã de respeito pela dignidade de cada pessoa poderá ler corretamente os novos sinais dos tempos.

Felizmente que existem movimentos cristãos voltados para este tempo como um tempo de vida e não necessariamente de solidão. A discussão na Assembleia da República pode ter o mérito de sensibilizar politicamente um problema que já é óbvio. Mas envergonha-nos, por termos lançado à lixeira da solidão os nossos familiares idosos. E, segundo a Bíblia, isso é um grave pecado. (Honra teu pai e tua mãe... quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe certamente morrerá – Mt 15)