Opinião

Jovens órfãos de mestres

29 de Janeiro de 2018

«É-me grato anunciar-vos que em outubro de 2018 se celebrará o Sínodo dos Bispos sobre o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração.» É desta forma que o Papa Francisco começa a Carta aos Jovens, onde apresenta o próximo Sínodo dos Bispos em Roma. Por isso, 2018 será para a Igreja um ano dedicado aos jovens. E a PAULUS Editora já tem uma série de propostas que vão nesta direção: Bíblia Jovem Youcat, Twittando com Deus, Um “santo” surfista, 10 conselhos para os jovens segundo o Papa Francisco, e uma nova rubrica na revista FAMÍLIA CRISTÃ intitulada «Eu acho que…».

Mesmo importante é conhecermos e convivermos com os jovens (cujo critério de idade vai sempre aumentando, atualmente são considerados jovens dos 18 aos 30 anos). Ao olhar para eles, existem algumas características que são comuns, independentemente da nacionalidade, estrato social ou religião. O individualismo, o subjetivismo, o consumismo e a tendência para a dessocialização estão entre esses modos de ser e de se comportarem.

Os jovens de hoje são filhos do liberalismo, da globalização, das mudanças na família, cada vez mais marcados pela separação dos pais e pela falta do casal como espaço de confiança e segurança.

Estes jovens são filhos dos que viveram a sua juventude entre os anos 80 e 90, os quais frequentemente escolheram não transmitir aos seus filhos os valores religiosos e cristãos que receberam, com o intuito de lhes darem a felicidade sem imporem regras.

Os jovens hoje demonstram ser mais disponíveis e atentos às ações de solidariedade, mas têm menos sentido de pertença do que os seus pais. A sua identidade assenta cada vez menos na reflexão e na memória histórica, literária e artística das raízes cristãs.

Estão cada vez mais imersos no universo virtual dos videojogos, das redes sociais, da internet, da televisão e do cinema. Facilmente absorvem as modas e as regras de mercado, são um alvo recorrente da publicidade que os instiga à satisfação imediata dos desejos e a uma vivência desordenada da sexualidade, por vezes confusa e antirrelacional. A consequência é que, depois, no contacto com a realidade, as representações imaginárias e virtuais de si próprios e da vida real lhes causam medo e frustração.

A dimensão relacional através dos novos meios digitais encontra novos modos de agir e interagir. E se por um lado oferecem novas possibilidades de comunicar e de fazer novas amizades, por outro adverte-se para uma superficialidade nas relações e o afastamento das relações interpessoais. O perigo é o isolamento social com a ilusão de estar em companhia («juntos, mas sozinhos», diz Sherry Turkle).

Os nativos digitais aprendem rapidamente a navegar na rede, são hábeis na representação de emoções e menos hábeis a vivê-las, não têm a comunidade dos adultos como referência porque graças à tecnologia vivem numa comunidade tecno-referencial e principalmente virtual na qual constroem autonomamente os percursos do saber e do conhecimento.

Neste contexto assiste-se ao fenómeno do silêncio dos adultos e na perda dos filhos que podemos definir como “filhos órfãos de mestres”.

Os “pais líquidos” (segundo a teoria de Zygmunt Bauman) são afetuosos, preocupados pelos seus filhos mas renunciaram a educá-los, isto é, a transmitir-lhes a visão da vida, das narrativas assentes em valores, da reflexão sobre o sentido das coisas. Esta geração de adultos renunciou a educar, deixou de narrar-se a si mesmo, de propor a vida, a vida da família e da sociedade na qual vivemos, deixou de aceitar o risco da liberdade do outro, que pode trazer momentos difíceis e conflituosos. Por isso cada vez mais se fala da “emergência educativa”.
É urgente olhar para os jovens com as lentes da paciência e da bondade, caso contrário corremos o risco de uma miopia social e de um futuro às cegas.