Opinião

Fale-lhe dos seus amores

09 de Fevereiro de 2015

1. Nunca lhes falamos das estrelas. Nem do entusiasmo que nos levava à lua. Nem tão-pouco de como deixámos de nos importar que a noite colasse ao dia, sem pregar olho, a rever na cabeça cada fala, o eu disse, ele disse, em que procurávamos encontrar sinais de esperança, indícios de que pudesse sentir o mesmo... Como nos esquecemos de lhes contar como era difícil manter a concentração no manual que éramos suposto estudar, escolhendo, em vez, adorar a fotografia dele escondida entre as páginas, como que a querer decorá-los, ou de como passávamos a vida ao telefone, para fúria dos nossos pais.

Provavelmente também saltamos por cima da paixão que sentimos, hoje, no presente, pelo pai/mãe deles, ou por aquela pessoa com quem partilhamos a nossa vida, provando-lhe em todos os gestos que esta ideia de que a paixão é coisa só para adolescentes é tanga publicitária, e que também nós continuamos a ver estrelas, e a saltar por cima da lua (e se assim não for, precisamos de fazer por isso!)

Pensando a fundo, nunca lhes falámos de todos estes momentos mágicos, porque estamos demasiado (pré)ocupados a avisá-los dos perigos, a pedir-lhes cautela, a ameaçá-los com as consequências, a anunciar corações partidos. Tantas e tantas vezes pondo a carroça à frente dos bois, impingindo-lhes respostas a perguntas que nem sequer formularam, nem alto, nem para si próprios. Dizendo mais das nossas amarguras e desilusões, das nossas mentiras e traições, dos riscos que corremos, do que deles. Cortando-lhes o caminho, antes que o tenham percorrido.

É verdade que muita coisa mudou, a começar pelos telefones, mas a essência do amor é invariavelmente a mesma, e não se esqueça de que aquilo que eles procuram, não difere daquilo que procurava com a sua idade, daquilo por que anseia agora: amar e ser amado. É, por isso, do essencial que devemos falar. E para isso não precisamos de ler livros, nem de consultar especialistas, porque os especialistas somos nós: pertencemos a um sexo, somos homem ou mulher, apaixonámo-nos e sofremos desgostos de amor, alguns tão grandes que nos fizeram pensar que não havia literalmente amanhã (por favor, não lhe diga em plena crise, que há muitos outros peixes no mar...), superámos desilusões e fomos capazes de lutar por quem queríamos ao nosso lado.

Mas é preciso falar-lhes do futuro. Diga-lhe que a história não acaba com uma festa de casamento, e que nenhuma relação dura quando um decide calçar os chinelos e ficar à espera que o outro faça tudo, e conte-lhe de como o amor se reinventa e reconstrói, mas não deve tolerar tudo, não deve tolerar nunca que não nos respeitemos a nós mesmos, ou que os outros não nos respeitem. Não se esqueça, no entanto, que o exemplo conta quase tudo, e o modelo mais próximo que ele tem... são os pais.

2. Não tenha medo de estabelecer as regras familiares que entender, de preferência negociadas. Não ceda só porque "todos vão" – aliás, se puxar pela memória, só pode sorrir com a recordação de ter dito o mesmo aos seus pais, pelo menos mil vezes –, mas não recuse sem ouvir os argumentos da parte contrária, e tenha a humildade de mudar de ideias se for caso disso. Lembre-se, sobretudo, que os adolescentes testam a sua capacidade de argumentação com os adultos que lhes são próximos e ficam mais preparados se lhes dermos a oportunidade de aprender a discutir (com maneiras). Depois, a decisão final é sua. Enquanto estiverem sob o seu teto – um ótimo estímulo para se fazerem à vida, dando uso aos seus talentos.

Nota – Quando estiver a desesperar, e vai estar muitas vezes, volte a ler os diários que escreveu com a idade deles. Ah, pois é!

Fonte: familiacrista.com