Lançamento

23/Fev

Entrevista a São João de Ávila, Doutor da Igreja

Ficha Técnica
Título: Escritos sacerdotais
Autor: São João de Ávila
Categoria: Vida consagrada
Formato: 14.30 cm x cm 23.00
Páginas: 528

A propósito do novo livro Escritos Sacerdotais de São João de Ávila, publicado pela PAULUS Editora, trazemos aqui uma “entrevista” onde se procura conhecer melhor este Doutor da Igreja a partir dos escritos que constam nesta obra agora editada.

Mestre João de Ávila, agora V. Rev. é Doutor da Igreja...
Assim o quis desde agosto de 2011, por sua bondade, o Papa emérito Bento XVI (na Introdução do volume).

Ao lado de São João da Cruz e de Santa Teresa de Ávila...
Conheço-os bem a esses dois. Privei com eles. Foi muito o que aprendi deles: ser um padre humilde, pobre, abnegado, orante e evangelizador. Só se pode evangelizar com esta postura.

Já o atual Papa Francisco deve gostar muito de si por aquele seu gesto de, na festa da sua Missa Nova, além de sentar 12 pobres à sua mesa, se ter despojado de tudo e oferecer todo o dinheiro aos pobres...
A minha época do pós-Concílio de Trento coincide com a época dele, do pós-Vaticano II. Francisco, graças a Deus, não quis deixar esquecida esta veia, a dos pobres, tão querida pelo Vaticano II e que este Concílio não pôde desenvolver convenientemente. Foi por isso que se lembrou de repescar o documento do “Pacto das Catacumbas” cujos 40 bispos seus proponentes se comprometiam pessoalmente a construir uma Igreja “pobre e servidora”, e que é a única maneira de ela perdurar até ao fim do mundo como significativa. Caso contrário, toda a gente fará pouco dela, como já acontece.

Diga-nos quem é Aquele que o amou e que o amou crucificado, como V. Rev.?
Esse é Jesus, por quem um dia levei uma primeira bofetada que me foi dada por um padre buleiro, vendedor de bulas, por o povo ter desertado da sua pregação adinheirada para se vir recolher sob o púlpito onde eu ensinava a doutrina cristã com toda a humildade e em espírito de pobreza. Essa bofetada recebia-a desse pregador na praça pública, mas eu por graça divina logo ali me ajoelhei e lhe ofereci a outra, como manda Nosso Senhor no Evangelho.

V. Rev. também falou muito do mistério de Cristo em Audi, filia e noutros escritos...
Quando escrevi aos pedaços essas folhas, tinha feito uma experiência de humilde discípulo de Cristo na cadeia que a Inquisição me impôs. Lembro-lhe que também o meu atual companheiro celeste São João da Cruz escreveu as suas melhores páginas místicas depois de uma experiência igual à minha na cadeia de Toledo, que seus irmãos frades lhe infligiram pondo-o a banhar os pés nas águas do vosso Tejo. Acusaram-me com má-fé de muitas coisas. Mas eu calei-me com tudo. Ao fim de um ano, a Inquisição abriu-me as portas da prisão. Foi aí que mais aprendi, muito mais do que em Salamanca, nem tem comparação. Depois disto, escrevi certas páginas que alguns amigos meus (ou inimigos, não sei) publicaram sem a minha autorização. Disseram-me que esse livro fez muito bem a muitas almas.

E que nos diz do facto de certo dia um famoso pregador dominicano ter afirmado, depois de o ouvir: «Acabei de ouvir o próprio São Paulo a comentar-se a si mesmo»?
Esta glória deve toda dirigir-se a São Paulo. Ele, sim, foi o maior amigo de Cristo na Terra. Dizem por aí que eu sou o melhor comentador de São Paulo em toda a história da Igreja. Mas se nos lembrarmos de São João Crisóstomo, agora também ele meu companheiro na academia celeste, esta minha glória é irrisória. No meu tempo, tive que me ocupar bastante a estudar São Paulo, porque na Igreja estava a impor-se um “herege” que muito falava da sola fides, enganando muita gente por redondamente desconhecer o grande Doutor dos Gentios. Sabe a quem me refiro, ao frei Martinho Lutero... Foi por sua causa que me agarrei aos escritos paulinos e me dediquei a ser, eu também, “apóstolo”... mas da Andaluzia. Não deu para mais. Eu até queria embarcar para as Índias, mas não me deixaram. As cidades e aldeias do sul de Espanha foram as minhas Índias.

Também nos consta que entre os seus “conversados” figura João de Deus, o português de Montemor-o-Novo, Francisco de Borja, homem nobre e casado que V. Rev. converteu, e que V. Rev. também passou pela “tentação” de ser jesuíta...
Nesses exemplos só se deve admirar a força da Palavra de Deus que eu me ocupava de administrar a quem passava pelas minhas mãos. Lembro-me bem do bilhete que o vosso São João de Deus, do qual me apiedava pela sua grande pobreza mas que admirava pela sua grande humildade, uma vez me enviou para falar comigo. O pobrezinho ficou junto da cruz que estava à entrada da vila e mandou-me este recado: «Digam ao grande Mestre, ao meu grande padre, que aqui está aquele grande pecador João de Deus, que, se ele der licença, o irá visitar.» Poderia eu recusar-lhe a audiência?
E no que se refere ao meu pensamento de vir a ser jesuíta, é verdade que recebi cartas de muita estima do meu glorioso companheiro Inácio de Loiola. Mas a vontade de Deus foi outra. E assim, fui um Mestre andaluz muito feliz. Porventura, livrei a Andaluzia do luteranismo.