Opinião

E se fosse eu?

18 de Abril de 2016

Portugal continua a dar cartas no que diz respeito ao acolhimento de refugiados. Pegando numa campanha de uma organização internacional, a Plataforma de Apoio aos Refugiados e outros parceiros criaram a campanha “E se fosse eu?” A proposta é que escolas de todo o país se unam com os seus alunos na sensibilização para a questão dos refugiados. Os alunos são convidados a fazerem a sua mala de refugiados, aquilo que levariam se tivessem, de repente, de fugir de suas casas para outro país.

E se fosse eu? Bom, a dificuldade na resposta só tem paralelo na minha incapacidade de conseguir percecionar todas as dificuldades pelas quais estes refugiados já passaram até chegarem a um país de acolhimento. Levaria uma muda de roupa, um telemóvel, carregador e bateria extra, levaria alguma memória de quem fui e das pessoas com quem fui feliz (uma pen drive seria o modo mais prático, mas não faltariam também duas ou três fotos em papel da família e amigos próximos). Levaria pasta de dentes e escova, assim como pente para o cabelo. Ser refugiado não implica ser desmazelado, e quereria esconder ao máximo essa minha condição das pessoas por quem passasse na rua, para que não me tratassem de forma diferente. Levaria uma recordação de infância, o meu lenço de escuteiro, a Bíblia (no formato mais pequeno que pudesse encontrar) e uma lanterna, daquelas de dínamo, porque pilhas deveria ter poucas durante o caminho. Ah, claro, e um canivete suíço.

Finalizo o exercício e imagino como seria se o mesmo fosse realidade. Demorei uns bons minutos, no sossego da minha secretária, a pensar nisso, mas se estivessem bombas a cair ao meu lado, ou alguém com uma arma apontada à cabeça dos meus pais, não teria certamente tempo para pensar em tudo quanto quereria levar na minha mochila. E é isto que todos temos de nos lembrar: E se fosse eu?

Apesar da fraca resposta a nível europeu, que apenas permitiu a colocação em Portugal de pouco mais de 100 refugiados dos quase 5 mil que poderíamos estar a receber, o nosso país tem sido saudado como exemplo de integração e preparação para o acolhimento desses mesmos refugiados, e isto deve deixar-nos orgulhosos. Campanhas como esta permitem continuar esse belo trabalho de integração e não de exclusão destas pessoas que sofreram horrores para chegarem até aqui. Nunca esqueçam que, nesta questão dos refuigiados como em outras onde estejam em liberdades fundamentais, este deve ser sempre o pensamento: #esefosseeu