Opinião

É agora que vamos ajudar os refugiados?

28 de Setembro de 2015

Há mais de 4 anos que o autoproclamado Estado Islâmico iniciou uma guerra sem quartel na Síria e no Iraque. Com o propósito (teórico, pelo menos) de formar um califado e de acabar com todos os infiéis, cristãos e muçulmanos de outras seitas, têm conquistado terras, dizimado aldeias e vilas, torturado, morto, sequestrado, a seu bel prazer, com pouca ou nenhuma oposição dos países ocidentais. Todas as semanas chegam, pelas redes sociais, relatos de uma crueldade desumana, com histórias que, apesar de impressionantes, se demoram pouco nos órgãos internacionais, e despertam pouca indignação nas redes sociais.

Pelo contrário, questões como caracóis, leões abatidos ou touradas ocupam a maior pate da fatia de indignação dos cibernautas portugueses, e provavelmente europeus. As notícias dos refugiados passam ao lado de todos, porque é um problema que não nos toca de perto. Tocou um pouco mais quando dois loucos decidiram matar toda a redação de um jornal francês, e quando agora três heróis acidentais conseguiram impedir um massacre dentro de uma carruagem de comboio, mas mesmo assim são assuntos passageiros.

Da Síria e do Iraque, chegam relatos de crianças e jovens mulheres que são vendidas como escravas sexuais, e isto no século XXI. Sim, escravas sexuais, expostas num mercado de rua à espera que homens se decidam a comprá-las por meia dúzia de tostões e violá-las sem piedade, apenas porque não partilham a mesma religião, argumentam. Isto acontece, com toda a impunidade.

Agora, o caso ficou mais grave: pela Macedónia começaram a entrar na Europa vagas de refugiados sírios, que já não conseguem sobreviver nas condições sub-humanas dos campos de refugiados sobrelotados no Líbano, na Jordânia e na Turquia. Desesperados, avançaram pelo Mediterrâneo à procura de uma porta de entrada na Europa, e foram recebidos com gás lacrimogéneo, bastonadas e muros. Sim, continuamos no século XXI, por muito estranho que pareça, e agora até estamos nos tais "países desenvolvidos", aqueles civilizados, que supostamente são superiores aos outros, porque têm uma história de civilização tão rica... sim, aqui as pessoas que fogem de uma guerra, que fogem da tortura, que vêm com as suas crianças pela mão e nada mais, que roupas e outros pertences foram ficando ao longo dos duros quilómetros que tiveram de percorrer, são recebidas à bastonada, são rejeitadas e postas à parte.

Há uns meses, um vídeo de Angela Merkel a explicar a uma refugiada que a Alemanha não podia acolher todos os refugiados que pretendessem vir para a Europa correu o mundo e levantou (poucas) ondas de indignação. A chanceler alemã, no entanto, tem razão. Se os milhões de refugiados que estão no Líbano e na Jordânia viessem todos para a Europa, seria o caos. Um caos tão grande como o que já está no Líbano, que viu a sua população duplicar com os refugiados, e não consegue suportar essa realidade durante muito mais tempo.

É um facto que a europa não pode receber todos os refugiados, mas isso não significa que não há nada que possa fazer para os ajudar. O problema dos refugiados não se resolve abrindo as portas da Europa, mas sim fechando as portas do conflito nos seus países de origem. Acabar com o ISIS é a única forma de parar os movimentos de refugiados para a Europa. Como é que o fazemos? Fechamos a torneira do dinheiro, deixando de comprar petróleo, e das armas, deixando de fornecer equipamento, e da compra de antiguidades, que foram roubadas das igrejas e museus "conquistados". Sem dinheiro e sem armas, uma ação militar forte acabará com qualquer pequeno problema isolado que se mantenha, pois os mercenários que atuam sob a égide do ISIS não são todos eles mártires: são pagos, e bem, para combater, como já várias reportagens o mostraram.
Quando deixarmos que os interesses económicos parem de dominar a nossa ação moral e ética, talvez aí seja possível escandalizarmo-nos com o genocídio que está a acontecer no Médio Oriente. Talvez aí deixemos de nos indignar com os Cecil desta vida fútil e nos preocupemos com as vidas humanas que se perdem, que são torturadas e violadas. Sim, hoje, no século XXI.
Os refugiados estão à nossa porta. É agora que a Europa se decide a ajudá-los como eles precisam?