Opinião

Duas Misericórdias

18 de Abril de 2016

Claro que nos tem feito bem este Ano Jubilar da Misericórdia. Alguns julgarão demasiado absorvente de todas as reflexões e mesmo inibidor de outras iniciativas. Há mesmo quem já se sinta cansado de ouvir a palavra Misericórdia e até pense que surge, à falta de melhor, como tema inspirador de tudo o que se faz na Igreja. E todavia uma palavra dita há tanto tempo, largamente citada no Antigo Testamento, nos evangelhos, nas cartas, na Patrística, na catequese, na formulação das 14 obras, nas santas casas como expressão caritativa, no apelo ao perdão, no rastejar dos vencidos, no clamor dos condenados, no homem de joelhos perante Deus e até perante os outros homens, ganha um novo vigor lançada pelo Papa Francisco. Ilumina-se de um fulgor, uma alegria, uma incisão nas nossas consciências, que por vezes nos parece de novo algo que aparentemente mais que dito e redito, mas não vivido em toda a sua dimensão nem levado às últimas consequências.

Não fora este o Ano de Misericórdia e certamente não teria ouvido numa reflexão alguém dizer: «Não deixamos ninguém ir a sepultar sem acompanhamento. Mesmo sem família, sem amigos, sem se saber o nome, nem onde e como morreu, mas não vai sozinho para a sepultura. Vai com dignidade, com acompanhamento, oração, e o seu corpo, venerado, fica ao lado de outros que como ele aguardam a ressurreição final.» Quem o dizia não era agente funerário nem de tendências mórbidas em estabelecer vizinhança com a morte. Apenas um sentido de misericórdia apontado numa dimensão aparentemente inútil ou até desprezível. De que serve a compaixão na morte a quem foi desprezado na vida? Apenas a misericórdia sabe responder.

Ouço um casal que já tem quatro filhos mas que havia planeado ter seis. Por razões médicas, teve de renunciar a esse desiderato. Até que um dia, no diálogo que sempre manteve sobre o tema, uma ideia surgiu: E se adotassem um ”filho”?

Tempo, oração, conselhos, procura de razões, consulta aos outros filhos embora pequenos. Maturação serena e de novo tempo e ponderação sobre todos os porquês e consequências da decisão. Até que sentiram que o coração se abriu, com a luz da fé, a um sim: adotar, isto é, receber mais um filho. Longo processo humano e burocrático a suportar com longas visitas, esperas, consultas, interrogatórios, preenchimento de formulários que quase pretendiam esgotar todas as hipóteses e surpreender todas as contradições. Compreenderam que não iam adotar um filho, mas era um filho que os ia adotar como pais. E não podiam escolher, como não escolheram os quatro filhos que já tinham. Fatigante o tempo de visitar as instituições de onde viria o seu “filho”. Não havia um lote de ofertas que o casal apontasse a dedo a criança que pretendiam.

Até que chegou o dia de responderem a uma pergunta choque: «Aceitam uma criança “deficiente”?» Mais tempo, mais reflexão, mais oração, mais consulta aos outros filhos. Como se distinguiria uma decisão acertada de uma aventura de risco que poderia pôr em causa uma família “estabilizada ”? Um a um foram caindo conceitos e preconceitos em nome de um novo filho que já amavam e que aceitavam como os outros que viviam sob o mesmo teto e se sentavam à mesma mesa. Souberam que a criança nascera saudável e que apenas por maus-tratos ficara cega, sem falar e de complexa mobilidade. Feita outra ronda de consultas tomaram a decisão. Disseram sim. Que aceitavam o novo filho e que há muito já o amavam mesmo sem o conhecer. E veio para casa com um nome próximo dos nomes dos irmãos.

Passaram dois anos: a casa alterou-se, os irmãos descobriram novas formas de relação, afeto, sacrifício e convivência. Há por vezes momentos duros. Mas todos têm um olhar novo sobre a vida.

Da minha parte, ainda não deixei de celebrar o silêncio que este gesto me deixou no coração no Jubileu da Misericórdia.