Opinião

Contratestemunho

07 de Fevereiro de 2017

Por estes dias, invade-me uma sensação estranha de vergonha e, ao mesmo tempo, vontade de gritar…
Vem isto a propósito das mais recentes decisões de Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos da América proibiu a entrada de refugiados e de cidadãos de alguns países maioritariamente muçulmanos. Abrangidos estão cidadãos de Iraque, Irão, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen. E abrangidas são também pessoas com green card, autorização permanente de residência. Trump diz que não se trata de uma proibição aos muçulmanos, mas a países ligados a terrorismo. Sucedem-se as manifestações contra a decisão e já há tribunais a “revogar“ a medida e permitir a entrada de cidadãos destes países.

Voltando às minhas razões de vergonha. Envergonha-me ouvir os líderes europeus criticar as decisões de Trump em relação aos refugiados quando a União Europeia negociou com a Turquia o reenvio de refugiados para aquele país... Envergonha-me ouvir Donald Trump dizer-se cristão e tomar medidas contra pessoas que fariam Cristo descer da cruz...

Na semana de memória do holocausto, ficou mais fresco na memória como tudo começou, como tantos se limitaram a cumprir ordens e tantos outros só muito tarde acreditaram nos relatos que chegavam acerca do que se passava nos campos de concentração.

Neste caso não podemos fingir não ver os sinais... Todos somos chamados aqui, e em situações como estas, a levantar a voz em defesa dos direitos humanos, dos direitos dos refugiados, da tolerância e respeito.
De Sophia de Mello Breyner:
«Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

[...]

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado»