Opinião

«Avancemos, Famílias; continuemos a caminhar!»

10 de Maio de 2016

Seria ingénuo esperar de Amoris laetitia (A Alegria do amor) mudanças radicais e improvisadas sobre o matrimónio e a família. E desonesto desvalorizar esta Exortação Apostólica pós-sinodal, porque a partir de uma leitura superficial não se encontram respostas rápidas a questões sensíveis como a do acesso dos divorciados recasados à comunhão.

O próprio Papa Francisco escreve na introdução: «não aconselho uma leitura geral apressada. Poderá ser mais proveitoso, tanto para as famílias como para os agentes de pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou procurar nela aquilo de que precisam em cada circunstância concreta.» Por isso, conclui: «Espero que cada um, através da leitura, se sinta chamado a cuidar com amor da vida das famílias», porque elas «não são um problema, são sobretudo uma oportunidade.» (AL, 7)

Na apresentação oficial no Vaticano, no passado dia 8 de abril, o casal Franco Miano e Giuseppina De Simone, referiu que «a leitura de Amoris laetitia foi um momento de grande emoção e profunda alegria. Alegria por um texto do magistério que ao falar sobre a família nos conduz ao essencial, àquilo que importa, através de uma linguagem direta, simples e para todos.»

Já o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, que apresentou uma síntese da Exortação, recordou que «como qualquer pastor», o Papa Francisco direciona a sua solicitude paterna para a inumerável variedade de situações concretas. Por isso, ele afirma: «Se se tiver em consideração a variedade inumerável de situações concretas, como as que mencionamos antes, é compreensível que se não devia esperar do sínodo ou desta exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares» (AL, 300).

Para o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, os princípios do discernimento gradual caso por caso e da inclusão são a coluna vertebral desta Exortação. «O Papa Francisco tem uma frase que é a trave mestra de toda a Exortação: "Trata-se de integrar todos" (AL, 297). Ninguém deve sentir-se condenado nem desprezado. Neste clima de acolhimento, o discurso da visão cristã do matrimónio e da família torna-se convite, encorajamento, alegria do amor no qual podemos acreditar e que não exclui ninguém, verdadeira e sinceramente ninguém. Para mim, Amoris laetitia é sobretudo, e em primeiro lugar, um acontecimento linguístico», sublinhou o prelado.

É importante que as imperfeições e as fragilidades não condicionem as famílias e não se tornem numa obsessão para os cristãos. Neste sentido, afirmou ainda o cardeal Schonborn: «O Papa Francisco confia na alegria do amor. O amor sabe encontrar o caminho. É a bússola que nos indica a direção. É a meta e o próprio caminho, porque Deus é amor e porque o amor vem de Deus. Nada é mais exigente do que o amor. E não se pode comprar. Por isso, não devemos temer que o Papa Francisco nos convide, através de Amoris laetitia, a um caminho nada fácil. O caminho não é fácil, mas está cheio de alegria».

Ao longo de nove capítulos, divididos em 325 números, com 391 notas, e uma oração final à Sagrada Família, podemos compreender como o Santo Padre procura articular a questão da descentralização da Igreja em questões que requerem unidade de magistério, mas aplicações pastorais diferenciadas segundo os diferentes contextos culturais no catolicismo global.

Na opinião do vaticanista Alberto Bobbio, «a exortação apostólica Amoris laetitia que o Papa Francisco dedica à família é a mais recente intervenção de um amplo magistério cristão que apenas se desenvolveu nos últimos duzentos anos da história da Igreja, enquanto questões teológicas, institucionais e jurídicas à volta do matrimónio que se entrelaçam indissoluvelmente e necessitam de ser especificadas».

O Papa Francisco lançou assim um novo desafio não só à Igreja mas a todo o mundo. Estejamos à altura dele: «Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! Aquilo que se nos promete é sempre mais. Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida.» (AL, 325)