Opinião

Aproximar-se do outro e deixá-lo pensar

28 de Janeiro de 2014

A mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicações Sociais (1 junho 2014) fala sobre a «comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro».

Entre outras coisas, Francisco aborda a questão da visibilidade das divisões acentuadas entre os que têm e os que não têm, a questão da importância da comunicação como promotora da solidariedade e da aproximação entre seres humanos, o perigo que pode constituir a velocidade de informação, a riqueza e ruído que pode constituir a variedade de comunicadores, a inclusão e exclusão que podem promover os vários meios de comunicação.

Embora a mensagem se refira particularmente à era digital, o Papa foi certeiro em tudo o que deve preocupar-nos enquanto comunicadores. Embora faça parte do mundo dos media, há muitos aspetos sobre os quais sou muito crítica.

E nem de propósito, desde a altura do Natal, este bombardeamento irrefletido e que não permite reflexão, esta falta de espaço e de silêncio para nos deixar pensar, o arrastão de "opiniões" porque alguém escreveu a sua de maneira eloquente e então nem se questiona, tem-me deixado num misto de preocupação e incredulidade.

Não preciso de recorrer a nenhum exemplo concreto, porque há vários. O que senti, como telespectadora, leitora e cibernauta foi que por uma série de dias seguidos não me estavam a deixar respirar, não me estavam a deixar pensar.

O pior desta sensação, agora como jornalista, é aperceber-me de que provavelmente, estes transmissores de informação, talvez nem se tenham dado conta de que o faziam. As exigências de audiências, de "likes" e "partilhas", de se ser o primeiro a transmitir, de contar na lista dos "fazedores de opinião" têm tirado espaço, da minha perspetiva, aos próprios comunicadores por excelência.

Deparei-me, na internet, com pessoas habituadas a lidar com a comunicação e com as novas tecnologias, a reencaminharem informação errada ou até já fora de tempo porque simplesmente não se questionaram. E estamos a falar de pessoas com preparação para isso. Isto para não falar daquelas com menos ferramentas para questionar e cujo problema da "credulidade" se acentua com a internet e as redes sociais.

Tem muita razão o Papa Francisco quando defende uma comunicação ao serviço da cultura do encontro, tem muita razão quando olha para os meios de comunicação social como ferramentas privilegiadas de solidariedade e aproximação entre pessoas. E tem muita razão nos perigos para os quais nos alerta.

É um bom ponto de partida, para crentes e não crentes, o documento que o Papa nos deixa para o Dia das Comunicações Sociais. É principalmente uma boa "chamada de atenção" para os que trabalham com a comunicação. Trabalhar ao serviço dos outros, não manipular e não se deixar manipular são desafios antigos e constantes. Conseguir fazer brilhar todos os aspetos positivos da comunicação, um dever. Porque, na verdade, saber comunicar continua a ser um poder, pelo qual nós é que somos responsáveis e não a internet, ou a televisão, ou os jornais.

Como diz, e bem, o Papa, «a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica.»