Opinião

As surpresas da viagem

16 de Janeiro de 2018

Teoricamente, o mês de janeiro volta-se para o novo ano que se abre com incógnitas e possivelmente com alguns medos. Mesmo não havendo sinais assustadores de fogo à nossa porta, sempre desconfiamos dos fumos que esvoaçam nos ares, confundidos por vezes com nuvens negras. O futuro traz sempre interrogações, à mistura com votos e promessas otimizados. Mas há sempre a desconfiança escondida nalguns acontecimentos próximos ou longínquos, no tempo e no espaço. Mesmo os mais desconfiados da religião dizem com frequência que “o futuro a Deus pertence”. Isso revela a incerteza e até a desconfiança no homem, na natureza, na história, na política, no futuro, e até na religião. Em Deus, sim, confiança absoluta, mas mesmo os seus representantes revelam muitas vezes sinais de fragilidade que enevoam os horizontes e até a esperança de muitos.

Quanto mais altas são as figuras que caem, mais sobe a desconfiança no próprio ser humano: “o que não serão os que são mais fracos!” Assim vamos começando o ano, acreditando moderadamente nas potencialidades do ser humano, nas capacidades de evolução da ciência, da técnica, dos novos meios que o homem sempre inventa e potencia, que já o levaram à lua e que o podem levar a Marte ou a outro planeta. Mas temos a consciência do limite. E parece que quanto maiores são as nossas capacidades e empreendimentos, mais se revela a possibilidade da queda, de projetos, sonhos ou desideratos que nunca chegarão a materializar-se.

Este é, por conseguinte, um tempo de sonhar, criar, arriscar, tirando do olhar do calendário a lição do tempo, dos projetos que ficaram a meio, das derrocadas de tantos edifícios que povoaram a nossa mente e despertaram a nossa capacidade. Os “velhos” sempre desconfiaram das máquinas e acham que o artificial é perecível, corrupção do que é natural. Talvez inconscientemente, são os grandes defensores da natureza, desconfiados e inimigos do progresso.

Sabemos pasmar perante o que o homem já conseguiu no campo da ciência, das letras e das artes, no conhecimento da natureza, na ultrapassagem da aparente cegueira de algumas leis naturais, no desafio de forças recônditas, na realização de planos aparentemente impossíveis. E, entretanto, em pleno terreno de humanidade, deparamos com altos e baixos, países e regiões desenvolvidas, laboratórios de ciência e arte desafiando todas as limitações, movimentos em terra mar e ar que não há muito estariam em livros de aventuras. E somos testemunhas ainda da miséria extrema, material e moral, do homem esbanjador da sua humanidade, dos crescentes meios de destruição, dos confrontos que dizimam comunidades onde os que mais sofrem são os pobres e as crianças. E tudo isso acontece no nosso tempo, no rasto de milénios que foram oferecendo dados e desenvolvendo sinais e forças que pareciam ocultas ou soterradas. E com as lições da história que nunca ficaram bem aprendidas.

Janeiro lembra-nos tudo isso e o que temos pela frente para criar, recriar, desenvolver, expandir, partilhar. Já temos experiência de, nas caminhadas mais audazes e inovadoras, nunca estar apenas um ser humano. É um património que se herda, desenvolve e transmite. E no rolar dos séculos vai ganhando forma e a evolução acontece. Aqui não podemos esquecer o Deus que entregou ao homem a capacidade de continuar a maravilha da criação. Por isso, na poeira milenar, somos mais um átomo de aparência insignificante. Mas de grãos pequenos se constituem as grandes searas. E de moléculas as grandes montanhas.