Opinião

A grande sala de visitas

07 de Junho de 2016

Quem tem um smart de qualidade razoável tem praticamente o mundo na mão. Olho por vezes para crianças e jovens e pergunto: O que estará a ver? Com que planeta estará conectado? Que hipóteses de informação passam por aquele ecrã que prende os olhos e o coração, e faz agitar os pequenos dedos como se fora um pianista exímio que conhece o seu teclado como as próprias mãos?

O primeiro impulso dos adultos, educadores, líderes sociais e religiosos, e outros, será perguntar pela moralidade que seduz as crianças indefesas e também os jovens a uma presença aparentemente fechada na concha do seu individualismo quase obsessivo. Afinal, o que poderá estar em jogo num ecrãsmart? Tudo e nada. Poder-se-ia dizer que «tu e o teu ecrã» são a mesma pessoa. Uma pessoa e um espelho. Estás ali por inteiro nas buscas que fazes, nos jogos que jogas, nas mensagens que envias, nos textos que lês, nas imagens que te seduzem, no mundo que visitas. Cada dia se pode fazer um exame de consciência revendo os temas que foram pesquisados. Por aí poderemos saber onde andou a vaguear o nosso coração, os nossos centros de interesse, a nossa abertura ao mundo, a nossa sensibilidade ou indiferença ao luxo e à miséria, as palavras e frases-chave que guiaram o nosso dia, os mestres que fomos ouvir, as orações que a Deus dirigimos, os santos que escolhemos por guia e patrono, os textos bíblicos de que nos socorremos. E ainda os problemas que nos preocuparam, os jornais que escolhemos, os mestres a que demos atenção, o GPS que guiou os nossos passos, a agenda que ocupou as nossas horas, o que nos deu prazer ou amargura, o que remexeu com as nossas melhores e piores emoções, o espaço e o tempo que demos à expressão da nossa fé, as páginas que escrevemos, os portais a que demos maior importância, as notícias a que reagimos nos blogues, facebook, twitter e outros, as intrigas em que nos enrolámos ou satisfizeram o nosso “gosto”, a vida que gastámos em intervenções que mereceriam o nosso repúdio ou o nosso silêncio. Para não falar das respostas ou protestos, ou adesões a que não resistimos.

O que temos afinal nas mãos? O mundo, o nosso mundo, o nosso espelho, a possibilidade de tocar o passado e de desenhar o futuro. Nunca como hoje dispusemos de tanta informação simultânea e concorrente. E de tanta riqueza humana com hipótese de ser partilhada. E ainda nem falámos de jornais impressos inteiros, canais de televisão e estações de rádio que nos estendem diariamente o tapete para que se passeie a nossa preferência, o consumo e publicidade, a aparência de quase tudo gratuito, a conivência dos amigos que partilham edições pela porta do cavalo.

E uma pergunta essencial: Que ligação fazemos deste todo à nossa consciência cristã? Como aprenderemos a separar o trigo do joio e o uso desse dom inestimável do tempo que nos pode enriquecer mesmo no divertimento, ou ser esbanjado se ocupa as pequenas alucinações a que a superabundância de dados nos pode lançar?

A velha lista de meios de comunicação social como imprensa, cinema, rádio e televisão afogou-se nos acessórios apenas virtuais no espaço e digitais na velocidade. Definidos como media, estão todos na mesma praça da comunicação, são multiplicadores de nós mesmos e dos outros, elos de abraço planetário.

Lembro um trabalho recente que filmei numa paróquia. Num recanto, uma religiosa reunia com os seus velhinhos para lhes ensinar a falar no computador com os seus filhos e netos emigrados no outro lado do mundo, numa troca de afetos talvez mais forte do que o real.